Aos 68 anos, Augusto Cury aparece em terceiro lugar nas pesquisas mais recentes para a Presidência, atrás de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Estreante em eleições, o candidato do Avante alcançou 8% das intenções de voto em levantamento divulgado na quinta-feira (3) e 10% em pesquisa apresentada na quarta (2). Os resultados o colocam como o nome mais bem posicionado entre os candidatos que tentam romper a polarização entre os dois primeiros colocados.
Na pesquisa Datafolha, Cury avançou seis pontos desde agosto. Na Quaest, passou de 2% na rodada anterior, de 14 de agosto, para 10%. O crescimento também aparece nas redes sociais: o Índice de Popularidade Digital calculado pela Quaest, em uma escala de 0 a 100, subiu de 37,8 para 54,5 pontos.
Redes sociais e propostas
O aumento repentino de seguidores provocou questionamentos de campanhas adversárias. Cury nega irregularidades e atribui o interesse à candidatura a uma “revolução silenciosa”. Até o momento, não há no Tribunal Superior Eleitoral processos relacionados ao tema. A legislação permite o pagamento para ampliar o alcance de publicações eleitorais, mas proíbe a contratação de influenciadores e o uso de perfis falsos ou automatizados para inflar o engajamento.
Entre as propostas do candidato está o fim da possibilidade de reeleição. Ele afirma que os cargos públicos pertencem aos contribuintes, e não a pessoas ou famílias. Na saúde, defende a ampliação da telemedicina no sistema público para desafogar o SUS.
A proposta foi questionada por causa da relação anterior de Cury com a Click Life, empresa do setor da qual ele foi sócio e embaixador até 2023. O candidato diz que não mantém mais vínculo com a companhia. Em 2025, a empresa foi desclassificada de uma licitação do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual por não apresentar certificação de Nível 3 da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde. A Justiça negou o pedido de suspensão, e o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou por unanimidade o recurso em fevereiro de 2026. O processo principal ainda tramita.
Do mercado editorial à política
Conhecido por livros de desenvolvimento pessoal, Cury rejeita o rótulo de autor de autoajuda. Formado em Medicina, ele atuou como psiquiatra e psicoterapeuta e também se tornou empresário. Declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 242 milhões.
A carreira literária começou em 1998, com “Inteligência Multifocal”. “O vendedor de sonhos”, romance lançado em 2008, tornou-se seu livro mais conhecido e foi adaptado para o cinema oito anos depois. Entre outros títulos estão “Ansiedade”, “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes”, “O Código da Inteligência” e “Você é Insubstituível”. O site oficial do escritor informa que suas obras são publicadas em mais de 70 países e que ele ultrapassou 42 milhões de exemplares vendidos.
As atividades empresariais ligadas a Cury e a familiares abrangem educação, treinamento profissional, gestão emocional, publicação, produção de conteúdo, agricultura, exploração florestal, imóveis, construção e participações societárias. Há 31 CNPJs identificados, dos quais 23 apareciam como ativos: 17 em São Paulo, cinco em Minas Gerais e um no Piauí.
Quatro contratações públicas localizadas somam R$ 222.912,32 em valores nominais. A mais recente e de maior valor foi feita pelo Conselho Federal de Contabilidade, que pagou R$ 110.436,23 por uma palestra on-line. Os documentos consultados não apontam irregularidades.
A aproximação com o PV
Embora se apresente como outsider, Cury já havia se aproximado da política. Em 2009, filiou-se ao Partido Verde, que cogitou lançá-lo à Presidência nas eleições do ano seguinte. José Luiz Penna, presidente do PV desde 1999, relata que o escritor demonstrou interesse, mas a candidatura não avançou depois que Sarney Filho convidou Marina Silva para a disputa.
Cury participou da elaboração de um programa de governo para Marina, com atenção à educação. Naquele período, defendia tornar profissionalizante todo o ensino médio, ampliar o ensino universitário a distância para municípios com mais de 10 mil habitantes e mudar o formato das carteiras escolares para “U”. Parte dessas ideias reaparece, com outras formulações, no programa de governo de 2026.
Nascido em Colina, no interior de São Paulo, Cury é filho de Salomão Jorge Cury e Ana Regina Brait Cury. Seu pai foi advogado, empresário, produtor rural e vereador. Um de seus irmãos, Salem Jorge Cury, tornou-se juiz federal. A filha Claudia Cury afirma que, em 2010, o escritor contou à família que desejava presidir o país, mas a ideia não foi bem recebida.
A candidatura de 2026
Antes de definir sua candidatura, Cury conversou com Michel Temer, Gilberto Kassab e Aécio Neves. O Avante ofereceu a estrutura eleitoral para a disputa, incluindo acesso ao fundo eleitoral e ao horário eleitoral. Para vice, o escritor escolheu Júlio Delgado, ex-deputado federal mineiro que já disputou a Presidência da Câmara e também foi filiado ao PV.
A trajetória empresarial inclui ainda a Filadélfia Nature Participações e Empreendimentos. Em 2025, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais indeferiu pedido da empresa para cortar 233 árvores nativas isoladas na Fazenda Serra Branca. O órgão também havia negado, no ano anterior, outro pedido, para suprimir 994 hectares de Cerrado em área classificada como de prioridade extrema para conservação.


