A missionária Rhavenna Barcelos de Almeida e os pais, os pastores Orminda e Nivaldo de Almeida, são investigados pela Polícia Civil de Mato Grosso por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho. Conforme o inquérito, a família teria usado um projeto de assistência religiosa em presídios para repassar mensagens, levar celulares e movimentar valores ligados à facção.
A apuração também identificou a relação de Rhavenna com Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como Batman e apontado pela polícia como um dos chefes do Comando Vermelho em Mato Grosso. Após fugir de uma unidade prisional de Cuiabá, ele teria se escondido no Rio de Janeiro e compartilhado com a missionária informações sobre seu paradeiro e operações policiais.
Atuação em unidades prisionais
Rhavenna e os pais integravam a Equipe Evangelismo Resgatando Vidas, projeto autorizado pelo governo de Mato Grosso a prestar assistência religiosa em presídios. A família frequentava a Penitenciária Central de Cuiabá, onde estão mais de 3 mil presos, entre eles integrantes e lideranças do Comando Vermelho.
A investigação começou após uma denúncia sobre a possível ligação da família com uma organização criminosa. Segundo a Polícia Civil, a atividade religiosa teria facilitado o acesso às unidades e o transporte de recados e celulares, além da movimentação de dinheiro.
“Eles levavam recados, lavavam dinheiro, emprestavam as contas bancárias para que fosse feita a ocultação e a dissimulação de valores e tudo isso era revertido em prol da facção criminosa”, afirmou o delegado Victor Hugo Caetano, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado.
Mensagens encontradas no celular de Rhavenna tratariam da movimentação de valores, e vídeos mostrariam criminosos armados. Em uma ligação, Nivaldo aparece exibindo uma pistola à filha e fazendo um gesto que, para a polícia, seria um símbolo da facção.
Relação com Batman e suspeitas de lavagem
Condenado a 49 anos de prisão, Batman cumpria pena na Penitenciária Central de Cuiabá. Em setembro de 2024, ele passou ao regime semiaberto, rompeu a tornozeleira eletrônica três dias depois e fugiu para o Rio de Janeiro. Posteriormente, entrou na lista dos criminosos mais procurados do país.
Segundo os investigadores, ele enviava a Rhavenna informações sobre o esconderijo no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Os dois também teriam se encontrado várias vezes na capital fluminense. Em uma conversa autorizada pela Justiça, Batman avisou sobre uma operação policial no Complexo do Alemão e disse, durante a madrugada, que havia deixado o local.
A investigação reuniu ainda imagens de Rhavenna com Batman e outros homens armados. Em um vídeo, ela aparece em um encontro na Rocinha, onde, conforme os investigadores, havia integrantes da facção.
A polícia também apontou contato entre a missionária e Renildo Silva Rios, preso há mais de duas décadas por homicídio, tráfico de drogas e organização criminosa. Ele é identificado como um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso. De acordo com o delegado Victor Hugo Caetano, Rhavenna e os pais teriam lavado dinheiro para Renildo. Ela teria recebido presentes de integrantes da facção, incluindo uma pulseira de ouro e um carro.
Denúncia e medidas judiciais
Rhavenna, Orminda e Nivaldo foram indiciados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Outras mulheres ligadas ao projeto foram investigadas e indiciadas por falso testemunho, sob suspeita de mentirem em depoimentos sobre relações com traficantes.
Na última sexta-feira (11), o Ministério Público denunciou Rhavenna, Orminda e Renildo por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Nivaldo morreu na semana passada em decorrência de um câncer.
As defesas de Rhavenna e Orminda negaram as acusações. Rhavenna permaneceu em silêncio durante o interrogatório policial.
A Justiça de Mato Grosso impediu a família e outras quatro pessoas de participar de atividades de assistência religiosa em presídios. Os demais grupos cadastrados continuam autorizados a fazer visitas. A Secretaria de Justiça de Mato Grosso informou que reforçou a fiscalização para impedir a entrada e o uso de celulares na Penitenciária Central de Cuiabá.



