GOIÂNIA — Maria do Amparo afirma que passou a pedir novas corridas por aplicativo com apreensão depois que caixas de sabão artesanal foram espalhadas no chão ao fim de uma viagem. Ela diz que não deixou de usar esse tipo de transporte porque não dirige, mas passou a pedir que o motorista estivesse tranquilo e não a maltratasse.
O episódio ocorreu na segunda-feira (28), depois que Maria saiu do Residencial Dona Genedir, em Senador Canedo, com destino ao Centro de Goiânia, na região do antigo Jóquei Clube. Ela transportava duas caixas com cerca de 120 barras de sabão produzidas ao longo de três dias. Os produtos seriam vendidos para complementar sua renda.
A corrida custava R$ 35. Maria entregou uma nota de R$ 50, mas o motorista informou que não tinha troco. Ela deixou o carro para tentar trocar o dinheiro em estabelecimentos próximos. No primeiro local, não conseguiu. Em outra loja, explicou a situação e recebeu R$ 35 de uma mulher.
Quando retornava ao veículo, a idosa percebeu, segundo seu relato, que o motorista estava nervoso. Antes que ela chegasse, ele soltou uma das caixas. A embalagem se abriu, e as barras ficaram espalhadas pela via. Maria afirma que perguntou por que ele havia feito aquilo e ouviu que o homem estava perdendo tempo. Mesmo depois de ela explicar que já tinha conseguido o valor da corrida, o motorista deixou o local.
Trabalho artesanal e tristeza
As barras eram feitas por Maria e vendidas, quando possível, aos domingos pela manhã, no Setor Leste Vila Nova, em Goiânia. Ela não tem banca própria: uma colega cede espaço ao lado da barraca, onde a idosa expõe os produtos sobre caixas de feira emborcadas.
Maria afirma que o choro não foi provocado principalmente por um possível prejuízo, mas pela maneira como o trabalho foi tratado. “Meu choro foi de tristeza de ver o meu trabalho sendo tratado daquela forma. Só isso”, afirmou.
Testemunhas ajudaram a recolher as barras depois do episódio, e algumas pessoas compraram parte dos produtos. As mercadorias eram comercializadas em kits com três unidades por R$ 10.
A idosa também é deficiente visual e enxerga apenas por um dos olhos. Ela contou que uma cliente, ao perceber sua condição, perguntou como mantinha tanta felicidade. Maria respondeu que, se já enfrentava a deficiência visual e ainda adotasse um comportamento fechado, a situação seria pior.
Polícia foi acionada
Pessoas que estavam no local chamaram a Polícia Militar no dia do episódio. Os agentes orientaram Maria a registrar uma ocorrência, mas ela estava muito nervosa e decidiu não fazer o registro naquele momento.
No dia seguinte, policiais voltaram a procurá-la. Maria conversou com uma sargento e com o comandante, mas preferiu não formalizar a denúncia contra o motorista. Ela disse que tomou a decisão por considerar que também deveria ter empatia pela situação dele.
Equipes do serviço de inteligência do CPC/2 e do 38º BPM localizaram o motorista em Bela Vista de Goiás. Aos policiais, ele declarou que uma das caixas havia se aberto acidentalmente. O homem não foi preso, e o caso será encaminhado à Polícia Civil para investigação.
Maria afirma que ainda se entristece quando lembra da cena e se pergunta o que poderia estar acontecendo com o motorista naquela manhã. Embora diga não acreditar ter feito algo que justificasse a reação, ela tenta compreender o que o levou a agir daquela maneira.


