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Muquém integra mapa dos quilombos históricos de Goiás, aponta pesquisa da UFG

Registros acadêmicos vinculam o quilombo à região de Niquelândia, mas ainda não revelam o tamanho nem a duração da comunidade.

Muquém integra mapa dos quilombos históricos de Goiás, aponta pesquisa da UFG
Foto: Reprodução/YouTube

A Universidade Federal de Goiás (UFG) inclui o Quilombo do Muquém entre as comunidades quilombolas históricas do estado. Associado à região da atual Niquelândia, no norte goiano, o quilombo surgiu em um território transformado pela mineração de ouro e pela expansão do trabalho escravizado.

A documentação disponível é limitada. Os registros permitem relacionar o Muquém ao contexto da mineração e ao território próximo ao povoado de mesmo nome, mas não informam quantas pessoas viviam na comunidade, quem eram seus moradores ou por quanto tempo o núcleo permaneceu organizado.

Mineração e escravidão no norte de Goiás

A exploração das chamadas Minas dos Goyazes ganhou força nas primeiras décadas do século XVIII e atraiu milhares de pessoas escravizadas para o interior da então Capitania de Goiás. Em 1736, havia 10.265 pessoas escravizadas registradas no território goiano. Desse total, 1.196 estavam nas minas do Tocantins.

A distribuição acompanhava os principais pontos de mineração. Pesquisa da UFG, baseada em trabalho do historiador Luís Palacín, registra 4.021 escravizados nas minas de Sant’Anna, 1.366 em Crixás e 1.196 nas minas do Tocantins, além dos chamados adventícios, que trabalhavam por períodos proporcionais.

A extração do ouro exigia trabalhadores em rios, escavações e minas. A exploração também alcançava a agricultura, a pecuária e outras atividades de sustentação dos arraiais. Nesse ambiente, fugir era uma das respostas possíveis ao cativeiro, e as serras do interior ofereciam áreas afastadas dos centros coloniais.

A historiografia reunida pela universidade registra que praticamente não havia arraial em Goiás sem a presença ou a ameaça de quilombos. A resistência, assim, acompanhava a expansão geográfica da sociedade escravista.

A formação do Muquém

Uma referência sobre o quilombo foi preservada pela historiadora Nilza Botelho Megale e atualmente é reproduzida pelo Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém. Segundo essa narrativa, pessoas escravizadas fugidas das minas auríferas de Cocal, Água Quente, Traíras e São José do Tocantins buscaram as serras da região, onde teria sido formado o Quilombo do Muquém.

A distância dos centros coloniais, o conhecimento da paisagem e a possibilidade de obter água e alimentos eram condições para a permanência de grupos formados por fugitivos. A existência de uma comunidade exigia, porém, mais do que a fuga: era necessário organizar moradias, produzir alimentos, estabelecer relações e criar formas de permanecer no território.

Por isso, o quilombo não pode ser compreendido apenas como esconderijo. Tratava-se de uma experiência social construída no cotidiano, em oposição ao sistema escravista.

Registros e lacunas históricas

Material acadêmico da UFG relaciona Muquém a outros quilombos históricos de Goiás, como Acaba Vida, Ambrósio, Cedro, Forte, Kalunga e Mesquita. Outro levantamento da universidade cita Muquém ao lado de Acaba Vida e Papuã, também associados a Niquelândia.

A mesma região aparece vinculada ao Quilombo de Acaba Vida, que ocupava terras férteis e consta em registro de 1879. A referência indica que a presença quilombola atravessou diferentes momentos da história local, inclusive depois do declínio do grande ciclo minerador.

A reconstrução do cotidiano do Muquém é dificultada pelo tipo de documentação preservada. Grande parte dos registros coloniais foi produzida por autoridades, proprietários, religiosos e agentes encarregados de manter a ordem escravista. Comunidades formadas por fugitivos, por sua vez, buscavam permanecer fora do controle oficial. Assim, os documentos costumam registrar mais as tentativas de captura do que a vida dos moradores.

A tradição associada a Nilza Botelho Megale afirma que uma companhia de homens armados, comandada por um capitão do mato, capturou os quilombolas. Não há, nas fontes consultadas, informações suficientes para estabelecer o número de moradores ou identificar individualmente os integrantes da comunidade.

O nome permanece no território

Muquém continua identificando uma localidade de Niquelândia. O município possui 9.846 quilômetros quadrados e população de 34.964 habitantes no Censo 2022. Pesquisa da UFG situa o distrito de Muquém a cerca de 45 quilômetros da sede municipal.

No mesmo território está Vargem Grande do Muquém, comunidade reconhecida atualmente como quilombola. Uma pesquisa de mestrado da Universidade de Brasília analisou sua relação com o território tradicional e a conservação do Cerrado, incluindo o processo de autorreconhecimento territorial entre 2020 e 2023.

As fontes consultadas não permitem afirmar que Vargem Grande do Muquém seja continuação direta do quilombo colonial ou que seus moradores descendam daquele núcleo. Essa relação exigiria pesquisas genealógicas, documentais e de história oral específicas. O que os registros permitem afirmar é a permanência da identidade quilombola no território de Niquelândia.

Em 2024, Vargem Grande do Muquém esteve entre as nove comunidades atendidas por uma operação do Governo de Goiás voltada a populações quilombolas do norte do estado que poderiam enfrentar isolamento durante o período chuvoso. Em 2026, Iphan e Incra incluíram a comunidade entre seis territórios quilombolas goianos contemplados por uma parceria de regularização fundiária e preservação cultural.

O acordo prevê levantamentos arqueológicos e antropológicos, além do compartilhamento de bases de dados, diagnósticos e capacitação das equipes. Com duração de dois anos, a iniciativa poderá subsidiar processos de reconhecimento e titulação. Também poderá ajudar a identificar vestígios de ocupações que não foram registrados por documentos escritos.

Uma história além do ouro

A série histórica reunida pela UFG aponta cerca de 10 mil escravizados em 1735, 15.321 em 1741 e 17.154 em 1749. O recenseamento da Capitania realizado em 1804 registrou aproximadamente 20.650 negros em cativeiro, equivalentes a 41% da população.

Os números dimensionam a presença negra na formação de Goiás, mas não resumem sua atuação ao trabalho compulsório nas minas, na agricultura, na pecuária e nos serviços dos arraiais. Pessoas escravizadas também fugiram, criaram comunidades e estabeleceram redes de sobrevivência.

O Quilombo do Muquém integra essa história mesmo sem que seus moradores, sua quantidade e sua duração sejam conhecidos. A escassez dos registros revela os limites da documentação colonial e reforça a necessidade de combinar pesquisa histórica, memória comunitária, estudos antropológicos e arqueologia para compreender a ocupação quilombola no norte goiano.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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