A disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) pelo controle de rotas de tráfico de cocaína provocou mais de 100 mortes em Mato Grosso do Sul desde o início do ano, segundo o promotor de Justiça Felipe Marques, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). A violência também alcançou cidades bolivianas próximas à fronteira, onde autoridades atribuem às duas facções brasileiras ao menos dez homicídios nas últimas semanas.
A escalada envolve municípios de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e São Paulo, além de áreas da Bolívia. As organizações disputam caminhos usados para transportar drogas que entram no Brasil pelas fronteiras com Paraguai e Bolívia. Mato Grosso do Sul tem fronteira seca e, por isso, é considerado estratégico para o domínio territorial e para o escoamento da cocaína.
Listas de pessoas marcadas para morrer
No dia 3, o Ministério Público deflagrou a Operação Death List e prendeu, em Juscimeira (MT), Pablo Santos, de 19 anos. Ele é apontado como responsável pela divulgação de uma lista com 24 pessoas marcadas para morrer por suposta ligação com a facção rival. As publicações traziam nomes, fotografias, apelidos e cidades ou bairros de residência, apresentando os alvos como “decretados” pelo CV.
Os perfis usavam o nome de usuário @zoidegatocvtudo2 e a identificação Cassilandia MS. Entre os municípios citados estavam Cassilândia, Inocência e Miranda, no Mato Grosso do Sul. A defesa de Santos não foi localizada.
Duas pessoas que apareciam na lista foram assassinadas. Gustavo Loschiavo Araujo, de 29 anos, morreu a tiros dentro de um carro em Cassilândia. Depois do homicídio, o perfil associado a Pablo publicou uma fotografia da vítima com a inscrição “eliminado”.
Na noite de 1º de agosto, também em Cassilândia, Márcio Aparecido Filho, de 27 anos, conhecido como Márcio Pelé, e a enteada dele, de 3 anos, morreram baleados dentro de um Fiat Uno. Outra criança que estava no veículo ficou ferida. O atirador fugiu de moto.
Marques afirmou que ainda existem outras listas em perfis ativos. Em 20 de julho, um grupo foi atacado em frente a uma casa em Ivinhema. Dois homens em uma motocicleta dispararam contra as pessoas; um homem que estava em uma das listas morreu no local. Uma mulher grávida de seis meses foi atingida, socorrida e sobreviveu. No dia 26, dois suspeitos, de 21 e 22 anos, morreram em confronto com a polícia.
Disputa por território e transporte
Segundo Marques, o CV tenta ampliar sua presença em cidades do norte de Mato Grosso do Sul, como Sonora, Coxim, Cassilândia e Chapadão do Sul, usando perfis no Instagram e no TikTok para ameaçar integrantes do PCC e pessoas que não aderem à facção.
O promotor afirmou que o PCC manteve historicamente a hegemonia em Mato Grosso do Sul, enquanto o CV dominava Mato Grosso. A expansão do grupo carioca para o estado vizinho estaria relacionada às rotas de drogas provenientes da Bolívia e do Paraguai.
O Paraguai, embora seja grande produtor de maconha, não produz cocaína. De acordo com Marques, o país funciona como entreposto da droga produzida na Bolívia e no Peru. As cargas podem seguir por veículos, aeronaves, estradas de Mato Grosso do Sul ou helicópteros em direção ao oeste paulista e ao Paraná.
A rota entre Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Ponta Porã, no Brasil, é controlada pelo PCC há dez anos, desde o atentado que matou Jorge Rafaat Toumani, conhecido como Rei da Fronteira. O CV tenta alterar esse cenário. Embora suas lideranças tenham ensaiado uma trégua em maio de 2025, a disputa territorial continuou nas linhas de frente.
Em cidades como Sonora, Paranaíba, Três Lagoas e Cassilândia, o conflito também envolve o controle das rodovias e do transporte ferroviário. Segundo o secretário da Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, Antônio Carlos Videira, a droga é embarcada em Rondonópolis, no Mato Grosso, com destino a Santos e Paranaguá.
Violência chega à Bolívia
Em 30 de julho, em San Matías, um grupo armado emboscou policiais durante uma operação. Um subtenente morreu e dois agentes ficaram feridos. Outros confrontos ocorreram em San Ignacio de Velasco, com nove mortos em cinco dias. Mais de 200 policiais foram enviados à região.
O governo boliviano afirma que a violência se concentra em uma área estratégica para o transporte da cocaína produzida no país. Dados das Nações Unidas apontam a Bolívia como o terceiro maior produtor mundial da droga, atrás da Colômbia e do Peru.
O ministro de Governo da Bolívia, Marco Antônio Oviedo, informou que Brasil e Bolívia firmaram acordo para manter um escritório permanente da Polícia Federal na fronteira. A medida também prevê a presença de policiais bolivianos no Brasil para ampliar a troca de informações. O Ministério da Justiça informou que a PF já mantém duas unidades diplomáticas e de cooperação internacional em La Paz e Santa Cruz de La Sierra.
A Bolívia também declarou ter prendido e expulsado brasileiros ligados às facções. Neste ano, 17 supostos integrantes do PCC e do CV capturados no país foram entregues às autoridades brasileiras.
Ações policiais e moderação das plataformas
O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o governo de Mato Grosso do Sul afirmam atuar de forma integrada contra o narcotráfico. A Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso informou que intensificou as ações na fronteira, ampliou o efetivo das bases policiais e equipou as forças de segurança.
O Grupo Especial de Fronteira (Gefron) construiu, em 2023, um Centro de Inteligência em Cáceres e melhorou a estrutura do Posto do Limão, em Porto Esperidião. Somente em 2026, apreendeu 25 toneladas de drogas e 12 aeronaves ligadas ao tráfico. O grupo atua de maneira contínua em quase 30 municípios, quatro deles na fronteira direta com a Bolívia.
A Meta declarou que suas regras proíbem o uso do Instagram para promover atividades criminosas ou glorificar organizações e indivíduos perigosos. A empresa afirmou remover conteúdos que violem essas normas e colaborar com as autoridades.
O TikTok informou que removeu conteúdos com ameaças atribuídas ao CV. No primeiro trimestre deste ano, 99,6% das publicações sobre comportamento violento e criminoso foram retiradas proativamente, e 89,8% foram removidas antes de qualquer visualização. No mesmo período, 96,2% das denúncias feitas por usuários foram respondidas em menos de 2 horas; 0,2% levaram mais de 24 horas.

