GOIATUBA — A falta de transporte que o afastou da universidade por mais de um mês levou Lucas Costa a encontrar uma alternativa sobre duas rodas. Desde 2025, o estudante percorre cerca de 130 quilômetros por noite, entre Goiatuba e Morrinhos, para frequentar a graduação em História da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
A motocicleta foi emprestada inicialmente por um amigo que soube da situação. No primeiro dia de retorno às aulas, Lucas tinha uma prova e foi aprovado. Em julho, comprou o próprio veículo e passou a fazer diariamente o trajeto noturno até a universidade.
Um caminho interrompido pelo transporte
Morador de Goiatuba, Lucas dependia de uma linha particular compartilhada com estudantes do Instituto Federal (IF). Em 2024, uma greve na instituição interrompeu o serviço, e ele perdeu um período inteiro da graduação. Mais tarde, recuperou parte das disciplinas, mas precisou estender o curso.
No ano seguinte, estudantes que usavam a mesma linha reclamaram dos horários dos universitários e ameaçaram deixar o serviço. Eram cerca de sete ou oito alunos do IF e apenas dois da UEG. O responsável pelo transporte decidiu, então, deixar de levar os estudantes da universidade.
Lucas tentou negociar pessoalmente, sem conseguir reverter a decisão. Depois, procurou a Prefeitura de Goiatuba e passou a receber o Bolsa Transporte Universitário. O benefício ajudava a pagar o deslocamento, mas não resolveu o problema. Com menos passageiros e outra linha funcionando durante o dia, o trajeto noturno seria mantido apenas até o fim de março.
Sem uma alternativa para chegar às aulas, Lucas ficou mais de um mês afastado. “Eu fiquei sem transporte, fiquei rodado, não sabia nem o que eu ia fazer”, contou.
Trabalho, estudos e novos planos
Para sustentar a continuidade da graduação, ele reorganizou o trabalho e as finanças. Voltou a atuar em obras, tornou-se bolsista da UEG e passou a fazer atividades aos fins de semana, incluindo eventos e venda de crepes.
Antes de chegar à História, Lucas cursou Fisioterapia, Educação Física, Arquitetura e Engenharia Civil. Arquitetura era seu antigo sonho, mas dificuldades financeiras o fizeram abandonar o curso. Ele também trabalhou como servente de pedreiro, garçom, lavador de carros e no atendimento ao cliente.
A decisão de voltar a estudar veio em 2022, depois que pediu demissão de um emprego no qual estava havia cerca de três anos. No fim daquele ano, foi aprovado no vestibular da UEG. Aos 30 anos, iniciou História no ano seguinte.
O interesse pela arte também esteve presente nesse período. Incentivado por amigos, fez um curso de tatuagem e chegou a montar um espaço para trabalhar com a atividade. Paralelamente à faculdade, foi aprovado em uma seleção da prefeitura para atuar como apoio educacional.
Da sala de aula ao projeto profissional
A experiência na escola mudou a maneira como Lucas enxergava a própria trajetória profissional. A expectativa era exercer uma função administrativa, mas ele acabou colocado em uma sala da Educação Infantil. Depois, como bolsista, acompanhou professores, observou a rotina das turmas e participou do cotidiano dos estudantes.
“Eu me apaixonei pela educação”, contou Lucas ao lembrar desse contato com a escola.
Hoje, está no 8º período de História e trabalha na área. Atua com estudantes do 5º ano e também com turmas do 2º e 3º anos. Os conteúdos estudados na graduação, especialmente em História, pedagogia e didática, passaram a influenciar sua compreensão sobre as necessidades dos alunos.
O período sem transporte, no entanto, provocou a perda de disciplinas e atrasou a conclusão do curso. A graduação precisará ser estendida por mais seis meses, e a previsão inicial de formatura, para este ano, não será mantida.
Depois de formado, Lucas pretende disputar uma vaga de professor em concurso público. A ideia é trabalhar na educação enquanto continua a formação acadêmica, com planos de fazer mestrado e doutorado. Ele também quer manter a produção artística, sobretudo o desenho.
A rotina de deslocamento já soma uma distância estimada entre 32 mil e 33 mil quilômetros desde o início das viagens. A motocicleta comprada em julho foi encontrada na própria cidade: Lucas procurava uma Fazer 2012, mas encontrou uma versão 2016, na cor desejada e por valor próximo ao planejado. Também adquiriu equipamentos para pilotar, como capacete e jaqueta.
A experiência levou o estudante a questionar a ideia de uma idade definida para estudar ou escolher uma profissão. Na turma de História, encontrou pessoas de 17, 19 e 20 anos, além de estudantes com mais de 50. Para ele, os percursos variam porque as oportunidades não são iguais.
“Isso aqui não é uma corrida. Para ser uma corrida e para ser justa, todo mundo tinha que sair do mesmo lugar”, afirmou.
Aos que desejam mudar de caminho, Lucas defende que a idade não seja tratada como impedimento para recomeçar.


