“A Bola Preta” foi escolhido para abrir o Festival do Rio 2026 e representa a Espanha na disputa pela categoria de Melhor Filme Internacional no próximo Oscar. Exibido no Festival de Cannes deste ano, o longa acompanha personagens ligados por segredos, desejos contidos e consequências de escolhas feitas sob o medo do preconceito.
A narrativa se estrutura em três momentos. Em 2017, o escritor Alberto, interpretado por Carlos González, descobre um segredo familiar mantido durante toda a vida pelo avô. Outra linha acompanha Carlos, vivido por Milo Quifes, um jovem pressionado pelo pai a tentar entrar em um clube social exclusivo, onde precisa lidar com rumores.
O eixo histórico da trama está na Guerra Civil Espanhola. Sebastian, interpretado por Guitarricadelafuente, é um trompetista transformado à força em soldado nacionalista. Ao esconder a própria sexualidade, ele enfrenta conflitos quando passa a cuidar de um prisioneiro. Rafael, vivido por Miguel Bernardeau, foi o último amor do poeta Federico García Lorca e sabe onde está escondida uma de suas últimas peças.
Desejo, silêncio e memória
As três histórias se entrelaçam progressivamente, tendo a sexualidade como tema que atravessa diferentes períodos. Ao longo de 155 minutos, o filme examina o que se perde quando a verdade é ocultada e acompanha personagens diante de descobertas e dúvidas sobre a própria identidade.
A guerra, marcada pelo confronto entre republicanos e nacionalistas em meados da década de 1930 e encerrada com a vitória do ditador Francisco Franco, funciona como cenário para uma narrativa que percorre o tempo. A história de Sebastian dá origem a partidas e recordações que conectam as diferentes linhas narrativas.
Inspirado em La Piedra Oscura, de Alberto Conejero, e em uma obra inacabada de Federico García Lorca, o longa utiliza uma obra não concluída como elemento de ligação entre os períodos. A direção de Javier Calvo e Javier Ambrossi, vencedores do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes 2026, aposta em trocas temporais e em uma montagem dinâmica.
A composição visual tem papel central, mas o filme também se apoia no drama realista e no trabalho do elenco. A direção constrói as dores e suas camadas, embora o uso frequente das mudanças de tempo possa gerar momentos de confusão. Gleen Close e Penélope Cruz fazem participações no longa, que transforma experiências, atração e desejos vividos em silêncio em uma narrativa sobre sentimentos ocultos e identidade.

