A música e o trabalho informal não bastam para Vicente sustentar a vida. Roqueiro que faz pequenas apresentações pela cidade, ele também recorre a bicos até encontrar uma oportunidade como vendedor de álbuns de formatura. A mudança profissional amplia seu contato com outras pessoas e desencadeia descobertas sobre a própria família em Leite em Pó, primeiro longa de ficção dirigido por Carlos Segundo e selecionado para a mostra Vertentes do CineBH 2026.
A trajetória do personagem é alterada por uma tragédia que ele encontra ao chegar em casa. O acontecimento o coloca diante da necessidade imediata de pagar as contas e sobreviver, mas também inaugura um percurso marcado pelo luto. Interpretado por Vinicius de Oliveira, Vicente atravessa a narrativa entre a desilusão dos sonhos artísticos e as exigências concretas da vida cotidiana.
Memória, violência e revelações
O filme começa com um lettering sobre Natal e sua transformação em base estratégica norte-americana durante a segunda guerra mundial, circunstância que levou militares a permanecerem na cidade. A referência histórica ganha sentido à medida que a trama revela diferentes formas de violência doméstica silenciosa presentes em muitos lares.
O contexto familiar não aparece apenas como pano de fundo. Segredos mantidos por anos contribuem para que Vicente reavalie a própria trajetória, enquanto as relações construídas a partir do novo emprego passam a interferir em sua maneira de compreender o que viveu. O protagonista percorre esse caminho a bordo de um Voyage antigo, em uma sucessão de perdas, tentativas e recomeços.
A narrativa se desenvolve com ações cadenciadas e detalhistas, alternando os conflitos com momentos de reflexão. A trilha sonora reúne clássicos do rock nacional, acompanhando as tentativas de Vicente de vender álbuns e as surpresas que surgem em cada encontro. Os personagens secundários participam diretamente dos conflitos e ampliam as dimensões da jornada central.
Ao circular pelo luto, pela solidão e pelas verdades familiares, Leite em Pó apresenta as relações como construções permanentes, capazes de definir a identidade de quem delas participa. A história acompanha um homem que, ao conhecer outras vidas, passa a olhar de outra maneira para a própria.


