A desorientação de Gilberto depois que Jacira passa mal e é levada ao hospital conduz “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, longa de André Novais Oliveira que recebeu três prêmios no Festival de Brasília e foi escolhido para a abertura do 20º CineBH. O episódio interrompe a rotina de um casal idoso e faz com que ele vague pelas ruas, sem conseguir encontrar o caminho de volta para casa.
Três momentos de uma vida compartilhada
A história começa nos anos 1970, quando Gilberto e Jacira, ainda jovens e apaixonados, vivem uma experiência extraterrestre. Quarenta anos depois, os dois estão casados e dividem uma existência marcada por cumplicidade, brincadeiras e fofocas. Jean Paulo Campos e Thainá Evaristo interpretam o casal na juventude; Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira assumem os papéis na velhice.
Conceição Evaristo, escritora e estreante na atuação, interpreta Jacira. Norberto Novais Oliveira vive Gilberto. Quando a personagem precisa ser hospitalizada, a perda possível desorganiza o cotidiano do marido e também sua percepção do espaço ao redor.
O roteiro organiza essa trajetória em três tempos, com mudanças de cor, ritmo e atmosfera. A juventude aparece associada às cores e à música. Na velhice, os tons pastéis acompanham os hábitos de um casal que atravessa as tardes com afeto e sem pressa. Depois do afastamento provocado pela perda, a luz desaparece gradualmente, enquanto Gilberto se mistura à paisagem e parece perder a própria referência.
Uma elaboração do luto
A direção e o roteiro de André Novais Oliveira avançam sem ansiedade, sustentados por respeito, sensibilidade e delicadeza. Um dos diretores da Filmes de Plástico, ele parte da própria experiência de luto e ausência após a perda da mãe para construir o filme. A narrativa recorre a metáforas e analogias para tratar da saudade e das pendências que permanecem quando alguém querido se vai.
A resolução conduz a uma imagem de luz plena e sublimação. Para completar esse percurso, a música-tema “Esquecer de Tudo”, de Hyldon, deve ser acompanhada até o fim dos créditos: sua letra se articula à história de Jacira e Gilberto.
O longa combina a experiência amorosa do casal a elementos que se aproximam do realismo mágico mineiro e da ficção científica latino-americana. O resultado é uma narrativa sobre a despedida, a permanência do vínculo e o espaço aberto pela ausência.



