BELO HORIZONTE — A discordância entre os críticos Miguel Arcanjo e Raphael Camacho sobre Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, resumiu uma das questões centrais da 20ª CineBH: a crítica não precisa produzir uma sentença única sobre um filme. Em uma conversa com Renato Marafon, os dois apresentaram leituras opostas para a mesma obra e defenderam que o público forme a própria opinião.
Camacho valorizou a passagem do longa pelo realismo para a ficção científica e o realismo fantástico. Para ele, essa mudança amplia a trajetória do protagonista e revela a disposição do diretor de deixar o caminho mais previsível. Arcanjo, por sua vez, se envolveu mais com a primeira parte, centrada no relacionamento entre personagens interpretados por Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira.
O crítico destacou a estreia de Conceição Evaristo como atriz e a relação do filme com Belo Horizonte e Minas Gerais. Também ressaltou a construção visual da parte ambientada nos anos 1970, com película, bailes black, fotografia, figurino e direção de arte. A transição para os elementos imaginativos, porém, o afastou da história do casal e de seus conflitos diante da velhice, dos problemas de saúde e da finitude.
Para Camacho, a segunda parte funciona como complemento essencial. A primeira estabelece uma realidade de identificação imediata; depois, o filme introduz o imaginativo e aborda a dificuldade de lidar com a possibilidade da partida de alguém amado. A divergência, nesse caso, não elimina nenhuma das leituras: apresenta caminhos diferentes para a mesma experiência cinematográfica.
Descobertas que circulam fora do circuito comercial
A programação da CineBH também foi apresentada como uma oportunidade para obras sem grande visibilidade encontrarem espectadores. Em meio a lançamentos acompanhados por campanhas milionárias e à seleção determinada por algoritmos, os festivais aproximam público, realizadores e críticos de filmes que podem não aparecer com destaque nas plataformas de streaming ou chegar a poucas salas.
Miguel Arcanjo escolheu Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, como uma de suas principais descobertas. O filme acompanha um jovem gay em Catalão, no interior de Goiás, e aborda pertencimento, sexualidade e o deslocamento de quem não se encaixa nos padrões de uma cidade conservadora.
A conversa sobre o longa levou Renato Marafon a recordar a falta de personagens gays nas telas durante sua juventude. Para ele, encontrar experiências semelhantes representadas no cinema pode produzir reconhecimento e aproximar o público de uma parte da própria história. A representatividade, nessa perspectiva, não aparece como elemento separado da linguagem cinematográfica, mas como uma das formas de o espectador se reconhecer em uma obra.
Camacho ressaltou a presença do cinema latino-americano na mostra e mencionou uma produção chilena sobre a crise migratória no norte do país. Entre os filmes brasileiros, destacou Leite em Pó, de Carlos Segundo, protagonizado por Vinícius de Oliveira. O longa acompanha um roqueiro frustrado que vive de trabalhos ocasionais e é levado por um acontecimento inesperado a uma jornada marcada pelo luto.
A análise de filmes como esse envolve também o cuidado para não revelar informações capazes de alterar a experiência de quem ainda não assistiu. Para Camacho, a crítica precisa contextualizar a obra sem entregar seus principais acontecimentos.
A crítica como ponto de partida
Renato Marafon rejeitou a ideia de uma crítica completamente imparcial. O olhar de quem escreve é atravessado por referências, expectativas, experiências e sensibilidades. Por isso, pessoas que assistem ao mesmo filme podem sair da sessão com interpretações muito diferentes.
Essa dimensão pessoal não dispensa responsabilidade. A opinião deve ser construída com atenção às palavras e respeito ao filme e a seus realizadores. A divergência, nesse cenário, não precisa se transformar em ataque: ela pode ampliar o debate e permitir que o público confronte a leitura do crítico com a própria experiência.
A orientação apresentada na conversa foi direta: o crítico interpreta, contextualiza e oferece ferramentas para o espectador pensar, mas não determina o que ele deve gostar. Como resumiu Raphael Camacho: “Assista e tire suas próprias conclusões.”
O encontro entre exibição, produção e debate
A CineBH é realizada pela Universo Produção em diálogo com o Brasil CineMundi, encontro voltado ao desenvolvimento e à coprodução de projetos audiovisuais. A mostra, assim, não se limita à exibição de obras concluídas: também reúne profissionais interessados em projetos que ainda estão em processo de criação e circulação.
Miguel Arcanjo relacionou essa estrutura à trajetória dos eventos da Universo Produção. A Mostra de Cinema de Tiradentes se dedica à descoberta e à discussão de caminhos do audiovisual brasileiro; a CineOP, em Ouro Preto, concentra-se em cinema como patrimônio, memória, preservação e educação; e a CineBH articula a programação cinematográfica ao ambiente de mercado do Brasil CineMundi.
Nesse espaço, produtores e diretores apresentam projetos a profissionais e festivais. A crítica, as conversas e os encontros entre sessões ajudam a manter os filmes em circulação por meio do debate. Para a CineBH, o festival é, portanto, uma forma de aproximar obras e espectadores, mas também de criar condições para que o cinema seja discutido antes, durante e depois da projeção.


