SÃO PAULO — A tradição musical preservada há mais de três séculos no Terreiro do Bogum, em Salvador, será levada a quatro cidades brasileiras pelo espetáculo Encontro Ancestral, do Aguidavi do Jêje. A circulação ocorre entre setembro e novembro, com apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador.
A estreia está marcada para 20 de setembro, na Casa Natura Musical, em São Paulo, com Chico César, Kabé Pinheiro e Peu Meurray. Em 24 de setembro, o grupo chega ao Circo Voador, no Rio de Janeiro, acompanhado por Chico César, Gilsons, Pretinho da Serrinha e Carlinhos 7 Cordas. Porto Alegre recebe o encontro no dia 27, no Bar Opinião, com Davi Moraes e Emanuelle Araújo. O encerramento será em 13 de novembro, na Concha Acústica, em Salvador, com Chico César, BaianaSystem e Ilessi.
Tambores e repertórios em diálogo
O Aguidavi do Jêje reúne 14 ogãs e mais de 18 instrumentos, entre eles 15 atabaques produzidos artesanalmente por Luizinho do Jêje no Terreiro do Bogum. Sob direção musical de Luizinho do Jêje e Kainã do Jêje, a formação tem como centro a percussão coletiva associada aos ritmos da nação Jêje-Mahi.
A proposta é manter o grupo como eixo de cada apresentação e adaptar os encontros às características dos convidados. Vozes, dança, narrativas e diferentes repertórios se articulam à formação percussiva, aproximando conhecimentos preservados no terreiro de criações da música brasileira contemporânea.
Com Chico César, o repertório inclui seis canções: “Mama África”, “À Primeira Vista”, “Tambores”, “Dúvida Cruel”, “Deus Me Proteja” e “Pedrada”. Para o cantor e compositor, a colaboração aproxima perspectivas religiosas e seculares por meio da ancestralidade africana. “A música brasileira tem uma relação profunda com as matrizes musicais africanas”, afirma.
Memória transmitida entre gerações
A trajetória do Aguidavi está ligada ao Terreiro do Bogum, um dos mais antigos terreiros de Candomblé do país. Em Salvador, os conhecimentos musicais foram transmitidos pela oralidade, pela convivência, pela escuta e pela prática. Os integrantes do grupo são ogãs e preservam uma relação direta com essa tradição.
A projeção internacional do conjunto cresceu em 2024, quando se tornou a primeira orquestra afro-percussiva com um álbum indicado ao Grammy Latino. O grupo também gravou “Violão de Cabaça” com Gilberto Gil e estabeleceu outras colaborações na música brasileira.
Em Encontro Ancestral, os ritmos preservados no terreiro servem de base para novas combinações. O percurso começa em Salvador, passa por diferentes regiões do país e retorna à Bahia, mantendo os atabaques como elemento central de uma experiência dedicada à presença da música de terreiro na produção cultural brasileira contemporânea.


