Norma Bengell construiu uma trajetória que passou pelo estrelato do cinema, pela circulação internacional, pela militância contra a ditadura e pela direção de filmes. Conhecida inicialmente como vedete e símbolo sexual, a atriz também se aproximou de movimentos políticos, escreveu manifestos feministas e participou da mobilização em torno de políticas para o audiovisual brasileiro.
Nascida no Rio de Janeiro em 1935, Norma começou a carreira como cantora e vedete. A estreia no cinema ocorreu em 1959, em “O Homem do Sputnik”, dirigido por Carlos Manga. Em pouco tempo, ela se tornou uma das principais estrelas do cinema brasileiro.
A estrela entre o Brasil e a Europa
Em “O Pagador de Promessas”, de 1962, Norma interpretou Marli, uma prostituta, em um filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. No mesmo ano, atuou em “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra. A obra consolidou sua fama, especialmente pela cena em que a atriz surge nua do mar, considerada a primeira sequência de nu frontal do cinema brasileiro.
A repercussão trouxe rótulos como “vedetinha”, “Brigitte Bardot brasileira”, “musa” e “símbolo sexual”. A pesquisa de Andressa Gordya, doutora em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que Norma passou boa parte da vida tentando escapar dessas definições.
A atriz também trabalhou em produções europeias, entre elas “Os Cruéis”, de Sergio Corbucci, e “Fedra West”, de Joaquín Luis Romero Marchent. Em sua casa, oferecia jantares que reuniam artistas e cineastas. Federico Fellini esteve entre os convidados. Durante o período em que viveu na França, Norma conheceu Jane Fonda, Delphine Seyrig e Simone de Beauvoir, experiências que contribuíram para que ela se declarasse feminista.
Norma manteve ainda uma amizade próxima com Glauber Rocha e circulou por festivais internacionais. Na Itália, viveu um romance com Alain Delon. Os dois se aproximaram durante as filmagens de “Mafioso”, em 1962, quando Delon rodava “O Leopardo” na mesma região. Em sua autobiografia, a atriz contou que Delon teria escapado pela varanda para não ser flagrado por Alberto Sordi, com quem ela também se relacionava.
Pesquisa e memória política
Gordya começou a investigar a trajetória de Norma depois de assistir a “Mar de Rosas”, em 2019. Ao buscar trabalhos acadêmicos sobre a atriz, encontrou poucos estudos dedicados a ela. A pesquisa reuniu filmes, documentos de arquivos e o acervo pessoal de Norma, preservado na Cinemateca Brasileira, além de materiais da coleção Brasil: Nunca Mais, na Unicamp, e do Arquivo Nacional.
A autobiografia Norma Bengell, publicada em 2014, um ano depois da morte da atriz, também foi uma das principais fontes do estudo. O livro foi organizado a partir de textos e materiais produzidos por Norma ao longo dos anos.
A aproximação da atriz com grupos que contestavam o golpe de 1964 tornou-se mais evidente na década seguinte. Em fevereiro de 1968, ela participou, ao lado de Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara e Ruth Escobar, de uma passeata de artistas contra a censura. Em junho do mesmo ano, esteve na Passeata dos Cem Mil, que reuniu artistas, estudantes, intelectuais e outros setores da sociedade contra a ditadura.
Durante o regime militar, Norma foi sequestrada por agentes do governo e levada para um local de detenção. De acordo com a pesquisa de Gordya, o desaparecimento provocou repercussão e mobilização de artistas, fatores que tiveram importância no tratamento recebido pela atriz e em sua libertação. A pesquisadora afirma que Norma não sofreu tortura durante o episódio, mas considera o sequestro uma experiência central de sua trajetória política.
A temporada na França também foi marcada pelo contato com ativistas feministas e com intelectuais e artistas como Simone de Beauvoir. Entre os materiais encontrados por Gordya estão manifestos feministas escritos por Norma que nunca foram publicados.
Trabalho atrás das câmeras
Norma passou a atuar também na direção. Em 1978, realizou o curta “Maria Gladys: uma atriz brasileira”. Em 1988, dirigiu “Eternamente Pagu”, sobre Patrícia Galvão, escritora e militante. Norma produziu o filme, participou do roteiro e dirigiu Carla Camurati no papel principal. A escolha de Pagu estava relacionada à identificação da atriz com a militância e a obstinação da personagem.
Em 1996, Norma dirigiu “O Guarani”. A produção enfrentou problemas financeiros e jurídicos, que levaram a investigações e, posteriormente, à condenação da atriz pelo Tribunal de Contas da União a devolver recursos públicos.
A atriz também participou, segundo a pesquisa, da mobilização pela aprovação da Lei do Audiovisual e da Lei Rouanet. Sua atuação, portanto, continuou ligada à produção cultural brasileira mesmo depois do período em que ocupou o lugar de musa do cinema.
Norma morreu no Rio de Janeiro em 2013, aos 78 anos. Na autobiografia publicada no ano seguinte à sua morte, resumiu a forma como enfrentou os rótulos associados à sua trajetória: “Mas nunca poderão me acusar de uma coisa: de que fui covarde.”


