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“Virtuosas” leva a promessa de perfeição feminina ao horror

Filme de Cíntia Domit Bittar acompanha mulheres em um retiro regido por fé, submissão e jogos de poder.

“Virtuosas” leva a promessa de perfeição feminina ao horror

O retiro criado em Virtuosas, filme dirigido por Cíntia Domit Bittar que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 24, promete conduzir mulheres à chamada melhor versão de si mesmas. Em uma mansão isolada, elas encontram regras, ensinamentos e a liderança carismática de Virgínia Heinzel, personagem interpretada por Bruna Linzmeyer. A proposta, porém, logo revela uma estrutura de controle que transforma a busca pela perfeição em uma experiência de terror.

A ideia de feminilidade apresentada no retiro parte de uma interpretação de Provérbios 31 e associa o ideal de mulher à submissão, à dedicação à família e a um comportamento considerado exemplar. O filme acompanha o modo como esse modelo influencia mulheres com desejos e expectativas diferentes, sem reduzi-las a figuras unidimensionais.

Fé, manipulação e poder

Virgínia fala sobre família, fé e submissão com a segurança de quem conhece as expectativas das participantes. Para Bruna Linzmeyer, entretanto, a personagem não é uma fiel convencida pela própria doutrina. “Ela se usa desses artifícios para manipular as pessoas, para manipular a fé das pessoas”, afirma a atriz.

A interpretação coloca Virgínia no centro de uma disputa em que a religião e a promessa de transformação funcionam como instrumentos de influência. A personagem não precisa ser apresentada como uma caricatura para produzir ameaça: sua capacidade de conduzir as demais mulheres nasce justamente do domínio sobre a linguagem e os valores que elas procuram.

Germina, vivida por Maria Galant, chega ao retiro interessada em encontrar sua melhor versão. Ao observar as regras daquele universo, começa a perceber como pode usá-las para alcançar o que deseja. A afinidade entre ela e Virgínia se torna uma das chaves do filme. Segundo Maria, as duas “não são tão diferentes assim”.

As participantes entram na mansão em busca de aceitação, transformação, reconhecimento ou controle. Ao longo da experiência, descobrem que podem ultrapassar limites que antes não imaginavam. O filme desloca, assim, a atenção da figura de uma vilã isolada para uma rede de interesses e vulnerabilidades.

O riso como porta para o horror

O terror avança por meio de uma progressão. A estranheza se instala aos poucos, sem um momento único que marque a passagem da sátira para o horror. A esposa de um deputado, interpretada por Juliana Lourenção, é uma das personagens envolvidas nesse movimento. Para a atriz, o risco está em julgar ou estereotipar rapidamente uma mulher que pode parecer absurda, mas que também é real e perigosa.

Essa combinação entre riso e desconforto estrutura a experiência proposta pelo filme. Situações aparentemente ridículas provocam uma reação imediata, mas ganham outro sentido quando suas consequências são observadas com mais atenção. A diretora associa esse mecanismo ao modo como conteúdos absurdos circulam nas redes sociais: primeiro provocam graça; depois podem revelar os efeitos de algo que foi subestimado.

Sarah Motta, que interpreta Bárbara, identifica esse processo em uma cena na qual Virgínia discursa sobre submissão. O discurso funciona porque não depende de uma formulação evidentemente absurda. Bárbara começa a jornada entusiasmada, acreditando que o retiro poderá torná-la uma mulher melhor, mas perde gradualmente o brilho à medida que sua expectativa entra em choque com a realidade daquele ambiente.

Para Brisa Marques, a história também questiona a existência de uma definição única de feminilidade. A personagem interpretada por ela integra o conjunto de mulheres complexas que o filme constrói ao explorar o gênero como imposição social e forma de controle.

Personagens fora da caricatura

A preparação do elenco incluiu uma aproximação com mulheres que seguem valores associados ao Provérbios 31. Sarah Motta diz ter percebido que esse universo reúne pessoas com trajetórias variadas, inclusive mulheres de sua idade e que fazem faculdade de arte. Juliana Lourenção também afirma ter revisto seu julgamento ao pesquisar um grupo que, de início, poderia ser facilmente transformado em caricatura.

Esse movimento impede que Virtuosas se limite a ridicularizar o modelo de feminilidade apresentado no retiro. O filme procura observar por que essa promessa pode ser sedutora e o que mulheres diferentes encontram nela. A ameaça não está apenas na doutrina defendida por Virgínia, mas na disposição das personagens de negociar seus próprios limites para obter aquilo que desejam.

Cíntia Domit Bittar define sua escolha como a construção de mulheres “monstruosamente humanas”. A formulação reúne as contradições que atravessam a narrativa: as personagens podem ser manipuláveis, ambiciosas, vulneráveis e assustadoras em momentos distintos. Nesse universo, o horror não depende de monstros externos. Ele se forma nas relações de poder, na adesão a discursos de controle e na capacidade humana de agir em nome da própria busca por reconhecimento ou transformação.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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