A versão definitiva de “Medo”, dos Titãs, nasceu durante uma gravação feita no escuro. Charles Gavin contou que Liminha desligou a iluminação do estúdio no meio de um take, sem avisar os músicos. Mesmo com as guitarras interrompendo a execução antes do fim, o baterista e Nando Reis continuaram tocando, e a gravação foi aproveitada no álbum de 1989.
A faixa enfrentava dificuldades nas sessões e ainda não tinha um arranjo concluído. A solução encontrada pela banda foi tocar ao vivo, com todos os integrantes reunidos na mesma sala. Para Gavin, o apagão funcionou como um recurso de produção: sem poder se enxergar, os músicos passaram a se concentrar na escuta.
“Apagou no meio da música, no meio do take, e o take era bom”, afirmou o baterista, em entrevista ao podcast Roll and Talks. Liminha, que participava da conversa, não se lembrava do episódio e chegou a perguntar se a energia do estúdio havia sido interrompida. Gavin esclareceu que apenas as luzes foram apagadas e que o registro continuou normalmente.
Nando Reis aprovou o resultado assim que a execução terminou e defendeu que aquela fosse a tomada escolhida. Gavin, porém, considerou um problema o fato de as guitarras terem parado antes do momento previsto. O baterista contou que Reis associou o procedimento ao tema da música, sobre perder o medo da própria criação, e sustentou que a banda havia tocado unida.
Soluções diferentes no mesmo disco
As sessões reuniram métodos distintos. “Miséria” recebeu programação produzida em Los Angeles sobre um loop de teclado de Sérgio Britto, além de camadas de bateria registradas posteriormente. “Medo”, em contraste, foi gravada com a banda reunida, em uma única passagem e sem iluminação.
O trabalho também representou uma mudança no padrão sonoro dos Titãs. Liminha chamou o engenheiro americano Brad Gilderman, e a mixagem foi realizada no estúdio Nas Nuvens. Depois de ouvir o resultado, Herbert Vianna perguntou a Gavin o que os Paralamas do Sucesso fariam a partir dali. O baterista considera o disco um dos trabalhos de melhor sonoridade do grupo, apesar dos avanços tecnológicos posteriores.
A entrevista faz parte do segundo episódio de Liminha no programa. A conversa aborda sua atuação como produtor e multi-instrumentista, sua passagem pelos Mutantes e gravações com Gilberto Gil, Daniela Mercury e Chico Science & Nação Zumbi. Também trata do trabalho atual do músico à frente da Nas Nuvens Music Group, empresa de aquisição de catálogos.


