Uma canção de Renato Russo sobre fundamentalismo religioso e conflito no Oriente Médio foi retirada do repertório da Legião Urbana durante a produção de “As Quatro Estações”. “Rapazes Católicos” não chegou ao público porque a banda considerou que o contexto envolvendo a letra tornava sua publicação arriscada.
A história foi relembrada em uma live do canal Pitadas do Sal por Carla Cruz e Juscelino Filho, autores de “Renato Russo - Todas as Canções”. Durante a conversa, Juscelino abriu o arquivo da pesquisa e leu um verso recuperado: “Acho que vou ter que te matar por causa do seu Deus. Só que não precisa aprender com os muçulmanos, que os cristãos já fazem isso há muitos anos”.
A decisão de retirar a faixa
A composição foi escrita quando Salman Rushdie sofria perseguição por causa de “Versos Satânicos”, livro que levou o líder religioso iraniano a decretar uma sentença de morte contra o autor britânico. Juscelino afirmou que esse episódio pesou na decisão da banda: “Não saiu por isso, por causa dos Versos Satânicos”.
Anos depois, Renato Russo confirmou o corte em depoimento ao livro “Discobiografia Legionária”, de Chris Fuscaldo. Segundo o músico, a faixa foi retirada do álbum por ser “impublicável”. A base instrumental, com inspiração árabe, foi reaproveitada em “Feedback Song for a Dying Friend”, versão em inglês que recebeu outra abordagem temática.
A nova canção homenageou o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe, morto em decorrência da aids em 1989, e Cazuza. A tradução publicada no encarte ficou a cargo de Millôr Fernandes. Inicialmente, ele recusou o convite por afirmar que não traduzia do inglês, mas mudou de ideia ao saber quem havia escrito a letra.
A crítica de Renato Russo à ideia de guerra santa também apareceu em suas falas públicas. Juscelino lembrou que o cantor abordava o tema nos shows e dizia que não existe guerra santa. “Rapazes Católicos” permanece entre cinco gravações da Legião Urbana que continuam inéditas.


