TORONTO — Em setembro de 1976, o Rush lançou All the World’s a Stage, álbum gravado durante três noites no Massey Hall. O registro reuniu Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart em um momento de transição: a banda havia superado o risco provocado pelo desempenho comercial de Caress of Steel, mas ainda não havia alcançado a dimensão que teria nos anos seguintes.
A gravação veio depois de 2112, trabalho que contrariou a orientação da gravadora por uma abordagem mais acessível. Em vez de recuar da complexidade, o trio lançou um disco com uma suíte ocupando praticamente um lado inteiro do LP. A resposta do público confirmou que havia espaço para as ideias ambiciosas do grupo.
O álbum ao vivo mostrou como esse repertório se transformava no palco. Peart afirmou que as músicas ganhavam características próprias à medida que eram executadas em noites sucessivas. “Quando tocamos uma peça ao vivo, acrescentamos todas as nossas pequenas peculiaridades”, disse o baterista.
O repertório combinava faixas dos primeiros discos com boa parte de 2112, incluindo trechos da suíte que havia alterado a trajetória comercial do Rush. A apresentação não simplificava o material para a execução diante da plateia. Ao contrário, registrava a força adquirida pelas composições na formação de Lee, Lifeson e Peart.
Peart também disse que havia elementos nas apresentações que não apareciam nos discos de estúdio. A intenção, segundo ele, era preservar essa dimensão da banda. O resultado manteve uma sonoridade crua, associada a um processo de produção que Geddy Lee recordaria anos depois como trabalhoso e pouco apreciado pelo próprio grupo.
Na sequência, o Rush lançaria A Farewell to Kings, Hemispheres, Permanent Waves e Moving Pictures. All the World’s a Stage, porém, permaneceu como o registro de um ponto específico: a banda já havia deixado para trás a ameaça de desaparecer depois de um fracasso comercial, mas ainda não se tornara a instituição capaz de lotar arenas. O disco documentou o instante em que o palco passou a ter, para o trio, o mesmo peso criativo do estúdio.


