A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) permite registrar oficialmente a intenção de doar órgãos e tecidos. Criado há dois anos pelos Cartórios de Notas e regulamentado nacionalmente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o documento fica disponível no Sistema Nacional de Transplantes e pode facilitar o acesso de médicos e autoridades à vontade do doador.
A legislação brasileira ainda exige autorização expressa dos familiares depois da morte. O registro pessoal, porém, formaliza a decisão e pode ajudar os parentes no momento em que precisam autorizar a doação. No Estado de São Paulo, quase nove mil pessoas já fizeram o registro digital. Atualmente, pelo menos 23 mil aguardam um órgão no estado.
Como fazer o registro
O interessado deve preencher o formulário no site oficial da AEDO, apresentar documentos de identificação e um comprovante de residência. Depois, participa de uma breve videochamada com um cartório para confirmar a identidade e concluir o registro. O processo é gratuito.
É possível escolher entre doar todos os órgãos e tecidos reaproveitáveis ou selecionar itens específicos: coração, pulmão, fígado, rim, intestino, córnea e medula óssea. A autorização também pode ser revogada ou alterada gratuitamente pela plataforma.
Documentos de identificação podem registrar a intenção de doar, mas funcionam apenas como um alerta visual para médicos e familiares. Na AEDO, a informação fica vinculada ao sistema de transplantes.
A diretora do Colégio Notarial do Brasil-SP, Giselle Oliveira de Barros, afirmou que a iniciativa surgiu a partir de escrituras gratuitas de doação de órgãos feitas na seccional do Rio Grande do Sul. Para ela, a formalização é importante porque a demora dos familiares pode fazer com que órgãos deixem de ser aproveitados.
Doação e transplantes
O processo técnico de um transplante começa depois do diagnóstico de morte encefálica, definido como a interrupção irreversível das funções cerebrais. O hospital então comunica a central de transplante, que avalia o potencial doador e verifica se os parentes aceitam assinar a autorização.
A recusa familiar representa 45% dos casos. Mesmo quando existe concordância, a demora na decisão pode superar o período disponível para o aproveitamento dos órgãos. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam que, em 2024, cerca de 27% das notificações se transformaram em doações efetivas.
São Paulo terminou 2025 com 1.363 doadores, ante 1.023 em 2024, uma alta de 33%, conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-SP). No mesmo período, foram realizados 8.875 transplantes, 564 a mais que em 2024. A recusa das famílias caiu 1,3 ponto porcentual.
O apresentador Fausto Silva, o Faustão, que tem 76 anos, relatou ter passado por quatro transplantes em dois anos: recebeu um coração, dois rins e, depois, um fígado. Ele afirmou que estava em uma fase crítica antes do transplante cardíaco e disse que permanece em recuperação. Também defendeu que as pessoas comuniquem a intenção de doar aos familiares ou deixem a decisão registrada em documento.
Maria Clara Correa, dona de casa de 61 anos, fez a AEDO depois que o sogro morreu enquanto aguardava um transplante renal. “Estou aqui para melhorar como pessoa e também para ajudar o próximo”, afirmou.


