SÃO PAULO — Quase nove mil pessoas já registraram digitalmente a intenção de doar órgãos no Estado de São Paulo. A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), criada há dois anos pelos Cartórios de Notas e regulamentada nacionalmente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), oferece um documento oficial para formalizar essa decisão.
A manifestação registrada não substitui a autorização dos familiares. Pela legislação brasileira, a doação ainda depende da anuência expressa da família depois da morte. O documento, porém, deixa a vontade do potencial doador registrada oficialmente e disponível no Sistema Nacional de Transplantes, o que facilita o acesso à informação por médicos e autoridades.
Atualmente, pelo menos 23 mil pessoas aguardam por um órgão em São Paulo. Em 2025, o estado registrou 1.363 doadores, alta de 33% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizados 1.023. Também foram realizados 8.875 transplantes, 564 a mais que em 2024. A recusa das famílias caiu 1,3 ponto porcentual, mas continua sendo o principal obstáculo: responde por 45% dos casos.
Como fazer o registro
O interessado deve acessar o site oficial da AEDO, preencher o formulário e indicar quais órgãos pretende doar. É possível optar por todos os órgãos e tecidos reaproveitáveis ou selecionar itens específicos: coração, pulmão, fígado, rim, intestino, córnea e medula óssea.
São exigidos documentos de identificação e comprovante de residência. Depois do preenchimento, é agendada uma videochamada com um cartório para confirmar a identidade e concluir o registro. O procedimento é gratuito.
A autorização pode ser alterada ou cancelada a qualquer momento. Para isso, basta acessar a plataforma e revogar ou retificar o documento, também sem custo.
Registros em documentos de identificação podem servir como aviso visual para médicos e familiares, mas não têm a mesma conexão com o sistema de transplantes. Na AEDO, a declaração fica vinculada à estrutura oficial de informações sobre doação.
Decisão registrada pode reduzir perdas
O processo técnico de um transplante começa depois do diagnóstico de morte encefálica, definido pela interrupção irreversível das funções cerebrais. Após a confirmação, o hospital comunica a central de transplante, que avalia o potencial doador e verifica se os parentes estão dispostos a assinar a autorização.
Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam que, em 2024, apenas cerca de 27% das notificações se transformaram em doações efetivas. Mesmo quando a família concorda, a demora na decisão pode fazer com que a janela de aproveitamento dos órgãos seja perdida.
Giselle Oliveira de Barros, diretora do Colégio Notarial do Brasil-SP e responsável pela implementação nacional do serviço, afirmou que a proposta nasceu na seccional do Rio Grande do Sul, onde escrituras de doação de órgãos começaram a ser feitas gratuitamente. Para ela, o registro antecipado pode ajudar os familiares a decidir em uma situação irreversível.
A dona de casa Maria Clara Correa, de 61 anos, decidiu registrar sua vontade depois de acompanhar a experiência do sogro, que aguardava um transplante renal e morreu sem receber o órgão. “Precisamos pensar que podemos salvar muitas vidas com esse gesto”, disse.
O Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo. Em número de procedimentos realizados anualmente, o País ocupa a segunda posição no ranking mundial, atrás dos Estados Unidos.


