BELO HORIZONTE — Os golpes envolvendo falsas vagas de emprego combinam anúncios fraudulentos, entrevistas simuladas, cobranças por cursos e coleta de dados pessoais. Em casos mais sofisticados, criminosos chegam a solicitar biometria facial para tentar abrir contas, obter empréstimos e realizar transações em nome das vítimas.
Em 2025, o Brasil registrou 2,26 milhões de estelionatos, com taxa de 1.059,4 por 100 mil habitantes, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A busca por recolocação profissional cria um ambiente explorado por criminosos, que divulgam oportunidades falsas em sites, redes sociais, serviços de mensagens e plataformas de recrutamento.
Como os golpes são aplicados
Os anúncios podem levar a formulários que exigem informações pessoais e a criação de senhas. Como muitas pessoas repetem a mesma senha em diferentes serviços, o acesso obtido pode ser usado para invadir e-mails, redes sociais e outras contas.
Também há páginas com aparência legítima, impulsionadas para aparecer entre os primeiros resultados de buscadores. Outra estratégia é encenar uma entrevista de emprego e gravar a vítima durante um procedimento de biometria facial.
Em agosto, uma mulher foi presa pela Polícia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte, suspeita de alugar salas em coworking com identidades falsas para realizar entrevistas. Uma vítima afirmou à polícia que, depois de fornecer dados e passar pela biometria, os suspeitos tentaram financiar um veículo em seu nome.
A nutricionista Izabelle Mendonça, de 26 anos, perdeu R$ 300 ao acreditar que precisava concluir um curso para assumir uma vaga em um hospital. Após o pagamento, os contatos que tratavam da contratação a bloquearam. “Naquele momento, caiu a ficha de que eu tinha sido enganada”, relatou.
Concursos públicos também são usados como isca. Luiza, nome fictício, pagou cerca de R$ 100 por uma inscrição falsa para um concurso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A página imitava elementos do GOV.BR e, depois do pagamento, direcionava a candidata para um suposto exame médico.
Sinais de alerta
Entre os indícios estão promessas de salários incompatíveis com o cargo, contratação imediata, pedido de documentos ou dados bancários logo no início do processo e cobranças por cursos ou exames. Mensagens com urgência excessiva, erros de linguagem e endereços eletrônicos incomuns também exigem atenção.
No caso de uma falsa vaga associada à SPTrans, os golpistas prometiam remuneração de R$ 3.800 a R$ 4.200, além de vale-alimentação de R$ 650/mês, vale-refeição de R$ 35 por dia útil e auxílio home office de R$ 250/mês. A publicação, porém, apresentava inconsistências no nome da contratante e no endereço de e-mail indicado para o envio de currículos.
O presidente do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC), Fábio Diniz, defende medidas como a criação de uma agência nacional de cibersegurança. Para a psicóloga Marcella Moura, empresas devem informar quem conduz o recrutamento, apresentar sua trajetória e esclarecer com quais clientes trabalham.
Recomendações para candidatos
O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos orienta candidatos a consultar os canais oficiais da instituição responsável pelo concurso, conferir edital, inscrição e formas de pagamento e desconfiar de links recebidos por mensagens, redes sociais ou anúncios.
Para o GOV.BR, a recomendação é usar uma senha exclusiva, elevar a conta ao nível Ouro e ativar a verificação em duas etapas. Quem forneceu dados a uma página suspeita deve trocar a senha.
Em caso de Pix relacionado ao golpe, a orientação é procurar imediatamente a instituição financeira e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que pode ser acionado em até 80 dias. Também é recomendado registrar um Boletim de Ocorrência.
O Ministério informou ainda que fez 81 pedidos de retirada de conteúdos maliciosos relacionados ao concurso do IBGE. Links suspeitos podem ser encaminhados ao endereço [email protected].
Em pesquisa do LinkedIn, 83% dos profissionais do Brasil disseram checar se uma vaga é falsa, enquanto 61% afirmaram estar mais atentos a possíveis golpes na comparação com o ano anterior. A empresa declarou que as vagas publicadas devem ser autênticas e legítimas e que adotará as medidas previstas em suas políticas.


