Profissionais com deficiência que buscam posições técnicas e gerenciais encontram uma oferta muito menor do que a demanda registrada na plataforma IncluiPcD. De acordo com levantamento realizado em agosto, 31% das candidaturas espontâneas foram direcionadas a funções como analista, especialista, coordenador, gerente e diretor. Essas posições, porém, representam 1,5% das vagas disponíveis no sistema.
A pesquisa analisou 19.810 oportunidades abertas para 116.639 profissionais cadastrados na plataforma, mantida pela Egalite. Do total de vagas, 98,5% correspondem a cargos operacionais, com média salarial de R$ 2 mil. Entre os profissionais registrados, 25,9% têm educação superior completa e 6,3% são pós-graduados.
Formação cresce no ensino superior
Os dados da plataforma contrastam com a expansão da presença de pessoas com deficiência no ensino superior. O Censo 2022 do IBGE registra 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, das quais 7,4% têm ensino superior completo. Já o Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, aponta 95 mil estudantes com deficiência matriculados em faculdades, o equivalente a 0,9% do total de universitários. O ministério informa que esse número mais que dobrou em uma década.
A distância entre a formação dos candidatos e as oportunidades disponíveis é associada, no levantamento, à baixa qualidade das posições oferecidas e às remunerações inferiores. Guilherme Braga, CEO e fundador da Egalite, afirma que muitas empresas concentram esforços no cumprimento da Lei de Cotas, nº 8.213/1991, sem estruturar medidas voltadas à adaptação, à experiência no trabalho e à carreira dos profissionais.
“Isso não significa que a empresa é inclusiva”, diz Braga ao diferenciar o cumprimento da legislação de uma política efetiva de inclusão. Para ele, os incentivos legais se concentram em metas numéricas e podem estimular ações imediatas relacionadas à fiscalização, sem garantir a qualidade dos processos.
Restrições e pretensão salarial
A pesquisa também aponta que 48,6% das vagas com algum tipo de restrição por deficiência excluem pessoas com deficiência intelectual. Entre as justificativas aparecem a ausência de rotina estável e a alegação de que a área não estaria preparada para oferecer o suporte necessário.
Outro dado diz respeito à remuneração pretendida pelos profissionais cadastrados. O valor de R$ 1.450 fica 15% abaixo do salário médio oferecido na plataforma em 2026 e cerca de 10% abaixo do salário mínimo de R$ 1.621. Segundo Braga, a redução na pretensão salarial pode estar relacionada ao histórico de rejeição enfrentado por trabalhadores com deficiência e ao impacto desse processo sobre a autoestima.
O fundador da Egalite afirma que a inclusão depende também de oportunidades de desenvolvimento profissional. Na avaliação dele, a contratação voltada apenas ao cumprimento de uma cota não enfrenta o subaproveitamento de pessoas com deficiência nem amplia sua participação em funções compatíveis com suas competências.


