A inteligência artificial já pode percorrer etapas de uma operação de seguros, mas a emissão só é concluída depois da confirmação do corretor. Na Junto Seguros, agentes conseguem acessar serviços da companhia, analisar documentos, apoiar cotações e consultar informações por meio do assistente usado pelo próprio profissional.
A solução lançada pela seguradora em setembro utiliza o Model Context Protocol (MCP), padrão aberto que permite a agentes de IA acessar dados e serviços de outros sistemas e executar ações neles. Com isso, o corretor pode emitir apólices e administrar sua carteira usando linguagem natural, sem precisar navegar pelo portal da empresa.
A responsabilidade na operação
A decisão de manter a validação humana está ligada ao tipo de atividade realizada no mercado de seguros. Uma operação pode envolver documentos, regras, dados e avaliações de risco. Se uma informação for interpretada de maneira incorreta, o erro pode alcançar a própria apólice e produzir consequências financeiras e contratuais.
“Óbvio que sempre vai precisar do agente humano, da pessoa ali validando”, afirma Roque de Holanda Melo, CEO da Junto Seguros. Para ele, o conhecimento do corretor permanece essencial, sobretudo em seguros mais complexos. A automação pode reduzir o trabalho operacional, mas não elimina a necessidade de compreender os riscos e as condições oferecidas ao cliente.
Karine Chaves, CTIO da seguradora, defende que a responsabilidade deve ser compartilhada entre corretor e companhia. Melo afirma que a empresa não pode se eximir de sua parte, mesmo quando o problema estiver relacionado ao corretor ou a uma falha da inteligência artificial.
A Junto estruturou mecanismos para reduzir a possibilidade de falhas. A arquitetura inclui autenticação, controle de acesso e rastreabilidade das operações. Os sistemas registram as interações, permitem acompanhar o que os agentes fazem e restringem os serviços e as informações que podem ser acessados. A companhia também mantém monitoramento contínuo para identificar e corrigir problemas.
Uma nova camada de acesso
O MCP não substitui as integrações feitas por APIs. Ele atua como uma camada de acesso para que os agentes utilizem esses canais, sem que o corretor precise desenvolver uma integração própria. A mudança pode diminuir uma barreira tecnológica para empresas menores, que nem sempre têm estrutura para criar sistemas mais complexos com a seguradora.
A proposta altera a forma de interação com os sistemas. Em vez de localizar funções em telas, menus e formulários, o profissional pode informar o que deseja e deixar que o agente percorra parte do processo. As regras do negócio continuam existindo; o que muda é a necessidade de conhecer cada caminho da interface.
A mesma transformação aparece em áreas como programação, atendimento, vendas, finanças e administração. Ferramentas que antes respondiam a perguntas passam a executar tarefas em diferentes aplicações. O Gartner projeta que 40% das aplicações empresariais terão agentes de IA específicos para tarefas até o fim do ano.
Menos operação, não menos conhecimento
A tecnologia também pode facilitar a atuação de corretores em modalidades diferentes daquelas com que já trabalham. Ao interpretar documentos e conduzir etapas da operação, a IA pode contribuir para a entrada de profissionais no Seguro Garantia, modalidade ainda pouco explorada por muitos corretores, segundo a Junto.
O ganho operacional, porém, pode criar dependência excessiva. Se o profissional aceitar o resultado sem compreender o caminho percorrido pelo agente, poderá não identificar um documento mal interpretado ou uma condição inadequada para o cliente.
A distinção, portanto, está entre o corretor que apenas realiza cotações e aquele que atua como consultor. A IA pode conduzir parte da operação e liberar tempo para o relacionamento e a análise, mas o julgamento humano continua necessário para interpretar situações complexas e definir os limites do que pode ser delegado.


