A inteligência artificial pode entregar respostas corretas e, ainda assim, enfraquecer a aprendizagem quando substitui o percurso mental necessário para chegar a elas. Esse é o ponto central do debate provocado por novas restrições ao uso da tecnologia em ambientes escolares no Brasil e em Nova York.
No dia 1º de setembro, o Conselho Nacional de Educação determinou o veto ao uso de IA sem supervisão por alunos até o 5º ano no Brasil. Em Nova York, a prefeitura anunciou uma moratória de um ano para ferramentas de IA generativa destinadas a estudantes até o 8º ano.
As medidas ocorrem em paralelo à defesa da Unesco de que a educação continue sendo um direito humano e um bem comum na era da inteligência artificial. Também dialogam com os resultados da avaliação internacional Pisa, que registrou queda significativa no desempenho educacional em diversos países e chamou atenção para a distração digital e o uso inadequado da tecnologia.
O produto não substitui o processo
Para Ana Lucia de Souza Lopes, professora e representante do Centro de IA em Educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, aprender envolve mais do que alcançar uma solução. O estudante precisa formular hipóteses, mobilizar conhecimentos, relacionar informações, errar, revisar e argumentar. Quando a ferramenta passa a fornecer o resultado final, parte desse percurso deixa de ser realizada pelo aluno.
A tecnologia, porém, não produz necessariamente o mesmo efeito em todas as situações. Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor da Faculdade Einstein, diferencia um recurso que estimula a reflexão daquele que simplesmente executa a tarefa. Para ele, essa diferença depende do modo como o professor estrutura a atividade.
Os dados do Pisa não permitem atribuir à IA a queda de desempenho observada em diversos países. Há fatores mais amplos envolvidos, entre eles a forma como as tecnologias são incorporadas ao aprendizado. A preocupação, portanto, não deve se transformar em uma explicação única para os problemas da educação.
O que a escola precisa preservar
Teberga defende a proteção do núcleo da formação: compreender textos longos sem apoio externo, escrever para organizar o pensamento, trabalhar com números, estimar ordens de grandeza e sustentar um problema durante algum tempo. Essas capacidades permitem ao estudante avaliar se o resultado produzido por uma máquina faz sentido.
A expansão da IA também evidencia uma dificuldade anterior da escola: avaliações frequentemente valorizam o produto final. Uma redação pode parecer perfeita, enquanto o aluno não consegue explicar o argumento apresentado. Nesse caso, o desempenho registrado não corresponde necessariamente à aprendizagem.
A decisão de Nova York, conforme essa perspectiva, não trata a tecnologia como algo que deva ser banido. Entre a liberação sem orientação e a proibição sem formação, aparece a possibilidade de ensinar os estudantes a usar a IA com objetivos e limites definidos.
Como os alunos continuarão tendo contato com essas ferramentas fora da escola, ignorá-las não os prepara para a realidade. Para Lopes, a tarefa da educação é formar pessoas intelectualmente autônomas, capazes de dialogar com sistemas de IA, questionar suas respostas e reconhecer quando uma decisão não deve ser delegada à máquina.
A escola, assim, precisa definir em quais situações, com qual finalidade e sob que mediação a tecnologia será usada. O objetivo não é competir com a inteligência artificial, mas assegurar que os estudantes mantenham as capacidades necessárias para decidir o que pode ser automatizado e o que exige julgamento humano.


