O isolamento de uma estação na Antártida serve de base para o suspense psicológico de Antártida, novo longa de Bruno Safadi. Na primeira noite em que chega ao local, a pesquisadora Inês sofre uma violência sexual e precisa permanecer ao lado dos possíveis responsáveis durante o inverno. A subcomandante Elisabeth conduz a investigação enquanto a confiança entre os integrantes da equipe se desfaz.
Escrito por Claudia Jouvin, o filme estreia nesta quinta-feira, 17, nos cinemas brasileiros, depois de abrir o 54º Festival de Cinema de Gramado. Marina Ruy Barbosa interpreta Inês, que chega à fictícia Estação Comandante Diniz para integrar um grupo de pesquisadores e militares.
Um crime em uma comunidade isolada
Antes da violência, Inês é apresentada como alguém disposta a aproveitar a experiência, aproximar-se dos colegas e celebrar a oportunidade profissional. Depois do crime, a liberdade inicial dá lugar à solidão e à incerteza. Todos os homens da estação se tornam suspeitos, enquanto Elisabeth conta com a ajuda de Marina, vivida por Leandra Leal, e Rose, interpretada por Mariana Sena.
A investigação não se limita à identificação de quem cometeu a violência. Como os integrantes continuam trabalhando, comendo e dormindo no mesmo espaço, o caso passa a afetar toda a comunidade. A estação impede a fuga e prolonga a convivência entre vítima, testemunhas e suspeitos.
Marina Ruy Barbosa afirmou que a personagem atravessa um processo de reconstrução, sem superar de forma simples as consequências do crime. “Ela não tem com quem falar que ela confie”, diz a atriz, ao descrever a dificuldade de Inês para saber em quem acreditar.
A Antártida, nesse contexto, não aparece apenas como paisagem. O frio, a distância e a impossibilidade de deixar a base transformam a violência individual em uma crise coletiva. A investigação de Elisabeth também acompanha a reação daquela pequena comunidade à ruptura da confiança.
Paisagem criada em estúdio
As imagens do continente gelado foram produzidas em um estúdio virtual, com um grande painel de LED. O espaço tinha cerca de 1,5 mil metros quadrados, e a tela ocupava aproximadamente 300 metros quadrados. Imagens reais da Patagônia foram captadas para compor o cenário digital.
Ao contrário do chroma key tradicional, em que o cenário é inserido depois das filmagens, o ambiente virtual estava presente durante a atuação. A tecnologia oferecia aos atores e à câmera uma referência concreta do espaço e permitia filmar em estúdio uma história ambientada em uma paisagem de difícil acesso.
Leandra Leal afirmou que a preparação foi importante para que o recurso não tornasse o trabalho rígido. O elenco também precisou construir a dinâmica de uma unidade militar, na qual cada integrante tem uma responsabilidade e o funcionamento depende da coletividade. As conversas incluíram as cenas e os temas abordados pelo filme, com a participação dos atores que interpretam os homens da estação.
Personagens masculinos sem respostas fáceis
Lázaro Ramos, Gero Camilo, Antonio Calloni e outros atores interpretam os homens submetidos à suspeita. A proposta, segundo Leandra, foi evitar personagens reduzidos a tipos facilmente identificáveis como bons ou maus. A construção buscou apresentar homens reconhecíveis e capazes de cometer a violência que movimenta a trama.
A história foi desenvolvida por Claudia Jouvin antes da chegada de Bruno Safadi à direção. Para Leandra, essa origem deveria ser preservada, já que se trata de uma narrativa que a roteirista desejava contar havia muito tempo. A atriz também afirmou não considerar contraditória a direção masculina de uma história escrita por uma mulher e centrada na violência contra uma mulher.
O processo, segundo ela, foi marcado pela abertura de Safadi para ouvir diferentes perspectivas. Andrea Beltrão, que interpreta Elisabeth, ampliou a discussão ao defender que a compreensão da violência de gênero não deve ser tratada como assunto exclusivamente feminino. “Sei que existe um lugar de fala de cada um, mas acho que ter também uma via de mão dupla é algo muito bom”, afirmou.
A investigação, portanto, se desenvolve em duas frentes: busca esclarecer o crime e expõe os mecanismos de confiança, silêncio e convivência dentro da estação. A paisagem digital amplia o horizonte da imagem, mas os personagens permanecem presos ao mesmo espaço, sem possibilidade de partir.


