Lia Arieta dedicou a vida ao ensino infantil, à criação dos cinco filhos e à convivência afetuosa com netos, bisnetos, sobrinhos e amigos. Nascida em 1º. dezembro de 1927, em Agudos-SP, ela foi a 5ª. filha de Judith Correa Conceição e Tonico Morato Leite, que tiveram sete filhos.
Sua infância transcorreu nas fazendas da família, em meio aos irmãos, parentes e animais. O convívio com a natureza e a presença de muitas pessoas marcaram suas lembranças. Entre as cenas que recordava estava a rotina dos colonos das propriedades de seu avô, cerca de 350 famílias que viviam em casas construídas na Fazenda São José. Lia observava o preparo de pães e café e gostava de ouvir as canções em língua espanhola e italiana.
Aos 5 ou 6 anos, frequentou as primeiras aulas na escola primária estadual criada pelo avô dentro da fazenda. A instituição atendia aos netos da família e aos filhos dos colonos que trabalhavam no cultivo de café. Nas férias escolares, ela retornava a Agudos de trem, partindo da Estação Coronel Leite, construída para o escoamento da produção.
Formação e vocação para o ensino
Aos 11 anos, Lia passou a estudar em São Paulo e morou na casa comprada pelo pai no bairro da Aclimação, junto das tias Noêmia e Nair. Nesse período, aprendeu a preparar sobremesas portuguesas, entre elas ambrosia, doce de cidra, bala de café, brigadeiro, pirâmide de suspiro e manjar de coco. Mais tarde, essas receitas seriam oferecidas aos filhos e netos.
Ela cursou o “Normal”, fez cursos especiais de ensino infantil e lecionou na Escola Municipal Infantil. Guardava com carinho os nomes e as peraltices dos pequenos alunos. A atividade docente continuou por cerca de dez anos depois do casamento, celebrado em 05 de maio de 1953 com o médico Francisco Giraldes Arieta, na Igreja Nossa Senhora do Carmo. Ele tinha 32 e ela, 26 anos.
O casal se conheceu em encontros ligados às formaturas de familiares. Francisco concluía a Faculdade Paulista de Medicina, e os dois mantiveram contato por cartas até o casamento. Lia desejava ter 7 filhos, mas o casal decidiu formar uma família com cinco. Depois de se casar, ela deixou o magistério para se dedicar à educação e aos cuidados dos filhos, por considerar que a rotina de esposa de médico exigia maior presença no cotidiano familiar.
A vida conjugal se desenvolveu em Bauru, no interior de SP, onde Francisco mantinha consultório e trabalhava no IAMSPE, antigo INSS. Longe dos parentes de São Paulo, Lia criou novas amizades, inclusive com a cunhada Thereza, a sogra e mulheres da sociedade local. Também participou de organizações solidárias voltadas à assistência a crianças e mulheres desamparadas.
Família e longevidade
O cuidado com as crianças esteve presente em todas as etapas de sua vida. Depois de criar e formar os filhos — três engenheiros, um médico e uma odontologista —, Lia iniciou aos 57 anos a convivência com os netos. A família registra a chegada de Frederico e Pedro em 1984, de Julia e Luiza em 1987, de Vítor em 1996, de Eduardo em 1997 e das gêmeas Laura e Elisa em 1998.
Aos 80 anos, enfrentou um câncer e precisou lidar com limitações decorrentes da doença. A experiência, conforme o relato familiar, foi atravessada por paciência e adaptação, inclusive com o objetivo de ajudar outras pessoas acometidas pelo mesmo câncer a viver com menos incômodos.
Aos 87 anos, em 2015, recebeu seis bisnetos: Manuela, Julia, Maria Helena, Alice, Maria Vitória e Rafael. O relato também se refere à sua vida como avó de oito (8) netos. Lia acompanhou a infância dos pequenos, ofereceu conselhos aos filhos e celebrou a transformação deles em avós.
Nos altos dos seus 90 anos, manteve-se independente, sorridente e bem-humorada. Sua casa, em Bauru, permanecia cercada por sobrinhas, amigos e amigas dos filhos. A celebração dos seus 90 anos reuniu pessoas de sua geração, sobrinhos, filhos, famílias, netos e algumas bisnetas.
Lia viveu até os 98 anos. Para as pessoas que conviveram com ela, sua memória permanece associada à delicadeza, ao cuidado e a uma vida dedicada ao ensino, à família e às crianças.


