SANTA RITA DO SAPUCAÍ — Cerca de metade das músicas publicadas atualmente no Deezer é totalmente sintética, segundo a empresa. O dado aparece em meio à discussão sobre os limites da inteligência artificial generativa e seu impacto sobre a criação musical, tema debatido no HackTown, festival de tecnologia, criatividade e inovação sediado no município mineiro.
A tecnologia passou a produzir textos, imagens, vídeos e músicas que se aproximam de obras humanas com mais visibilidade a partir de 2022. Na edição deste ano do evento, realizada entre 3 e 7 de setembro, o debate incluiu o receio de que sistemas automatizados ocupem o espaço de profissionais em atividades criativas.
A própria definição de criatividade, porém, permanece em disputa. Em 1950, o matemático britânico Alan Turing evitou estabelecer o que significava uma máquina pensar e propôs avaliar se ela poderia enganar um examinador humano. Uma abordagem semelhante pode ser aplicada à inteligência artificial: em vez de perguntar se o sistema é criativo, seria possível observar se seus resultados parecem criativos.
Tecnicamente, a IA generativa trabalha com a recombinação estatística de padrões aprendidos. Ela seleciona, entre bilhões de possibilidades, os caminhos considerados mais prováveis. Essa operação ajuda a explicar por que a tecnologia pode simular originalidade, mas não necessariamente formular um propósito ou exercer julgamento.
Algoritmos e música
A influência dos sistemas algorítmicos sobre a música, contudo, começou antes da entrada direta da inteligência artificial no processo de composição. As plataformas de streaming passaram a interferir nas formas de criação, e o limite de três minutos adotado por boa parte dos lançamentos atuais surgiu sob pressão de métricas voltadas à distribuição.
Músicos também passaram a ser estimulados a repetir refrões e captar atenção nos primeiros 30 segundos. A inteligência artificial identificou esses padrões e os levou ao extremo, gerando faixas mais curtas e previsíveis, descritas como um “fast food musical”.
Dois elementos permanecem associados à experiência humana: a intencionalidade consciente e a vivência. A arte pode transformar inclusive o erro em recurso expressivo, enquanto um sistema treinado para acertar dificilmente faria isso de maneira deliberada.
A conclusão apresentada no debate evita tanto o pânico quanto a euforia. A inteligência artificial pode ampliar a criatividade humana quando orientada por profissionais capazes de atribuir intenção ao que a máquina apenas recombina. O desafio é integrar os dois processos sem reduzir a arte a um produto padronizado.
Paulo Silvestre participou do HackTown 2026 com o apoio da SAP.


