GOIÂNIA — A intervenção urbana “Áspera espera” será instalada em quatro locais de Goiânia nesta segunda-feira (28), com réplicas da cápsula que continha césio-137 e cadeiras semelhantes àquela sobre a qual o recipiente foi deixado na Vigilância Sanitária. Criada por Glauco Gonçalves, artista visual, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG), a obra desloca o foco da lembrança do acidente para o reconhecimento de quem participou de seu enfrentamento.
A data marca 39 anos desde que Maria Gabriela Ferreira levou o material radioativo às autoridades. Para Glauco, o gesto da mulher, uma das quatro vítimas fatais, ainda não recebeu o devido reconhecimento público. “É uma ação de reparação histórica, de agradecimento e de uma, ainda que singela, necessária homenagem”, afirmou o artista.
Quatro endereços ligados à trajetória da cápsula
A instalação ocupará o portão do Centro de Convenções, o terreno da Rua 57, a Rua 26-A e a frente do Palácio das Esmeraldas. Os pontos correspondem a diferentes momentos da história do material radioativo.
No local do Centro de Convenções funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), de onde dois catadores retiraram um aparelho de radioterapia. A cápsula estava dentro do equipamento. Na Rua 57 ficava a casa de Roberto Santos Alves, endereço para onde o aparelho foi levado e onde acabou desmontado, com a abertura da cápsula.
A Rua 26-A abrigava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Cinco dias depois, a peça foi vendida para esse endereço, onde o material continuou a ser manipulado e distribuído entre familiares e amigos. Diante do Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás, a cadeira simboliza uma cobrança ao poder público pelo reconhecimento e pelo cuidado com vítimas e profissionais envolvidos na emergência.
A escolha do dia 28
Maria Gabriela levou o recipiente à Vigilância Sanitária em 1987, depois de perceber os efeitos provocados pelo césio. Ao descer de um ônibus, entregou o material no local, onde um funcionário o colocou sobre uma cadeira. A cena deu origem ao título “Áspera espera”.
Segundo Glauco, a cadeira representa primeiro a espera por uma ação diante do risco radioativo. Depois, passou a simbolizar a falta de reconhecimento às vítimas, aos familiares e aos profissionais que atuaram na resposta, entre eles policiais, bombeiros, enfermeiros, trabalhadores da saúde, garis e motoristas.
A instalação também questiona a associação automática do início do acidente ao dia 13 de setembro de 1987, quando Roberto e Wagner encontraram a cápsula abandonada no antigo IGR. Para o artista, a narrativa deveria considerar como ponto inicial o abandono do aparelho pela clínica, e não o momento em que os catadores encontraram o material.
As cadeiras permanecerão nos quatro locais por tempo indeterminado, até que alguém decida retirá-las. O desaparecimento das peças integra a obra e remete ao abandono da cápsula radioativa.
“Áspera espera” é o segundo trabalho de Glauco ligado à memória do acidente. Antes, ele participou de “Césio em quadrinhos: a geo-história de uma tragédia”, com Ricardo Oliveira e o ilustrador Jorginho. O e-book gratuito foi pensado também para levar o debate a escolas de ensino fundamental e médio. Glauco atua na UFG desde 2016 e é docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade (Procidades-FAV-UFG).


