O plano de governo de Cleitinho (Republicanos) para Minas Gerais é apresentado como uma proposta de expansão dos serviços públicos, mas, na avaliação da cientista social e jornalista Jaqueline Morelo, não demonstra como financiar esse projeto diante das restrições fiscais do estado. Em artigo de opinião, ela afirma que o documento simplifica problemas estruturais, repete políticas já adotadas e não oferece indicadores suficientes para sustentar suas promessas.
A autora identifica no programa uma concepção segundo a qual os obstáculos da administração pública seriam resolvidos principalmente com cortes de privilégios, redução de cargos comissionados e reorganização política. O plano recorre a lemas como “O Povo Primeiro!” e “o dinheiro é do povo, não do governo” e promete que o estado poderá fazer mais com menos, sem detalhar como essa economia financiaria a ampliação de serviços, a recomposição salarial e a contratação de servidores.
Promessas sem diagnóstico
Morelo argumenta que o documento não apresenta dados iniciais, déficits de infraestrutura quantificados ou índices de desempenho educacional capazes de estabelecer um ponto de partida para as ações propostas. Mesmo temas como recuperação funcional de leitos e recomposição da aprendizagem aparecem, segundo ela, sem a delimitação objetiva dos problemas a serem enfrentados.
Na avaliação da autora, a ausência de diagnóstico transforma o plano em uma relação de promessas. A crítica se estende à ideia de que a eliminação de cargos comissionados seria suficiente para resolver dificuldades de financiamento da saúde e da infraestrutura. O orçamento estadual, observa, é pressionado por despesas obrigatórias, entre elas a folha de pagamento e a previdência.
O relatório sobre a macrogestão e as contas do governo de Minas Gerais no exercício de 2025, produzido pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), é usado como referência para examinar a viabilidade das propostas. O Executivo permaneceu acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, de 46,55% da Receita Corrente Líquida, nos três quadrimestres de 2025: 48,80% no primeiro, 48,52% no segundo e 48,22% no terceiro.
A folha também teria apresentado crescimento autônomo e vegetativo, associado a direitos adquiridos e ao pagamento de passivos. Entre 2021 e 2025, a quitação de férias-prêmio convertidas em espécie acumulou mais de R$ 1,33 bilhão. Para Morelo, a promessa de ampliar quadros, realizar concursos e recompor salários não é acompanhada de uma explicação sobre o aumento da receita nem sobre o cumprimento das restrições legais.
Políticas reapresentadas como inovação
Outra crítica do artigo é a de que o programa trata como novidades metodologias de gestão já utilizadas em Minas Gerais. A criação de uma Sala de Monitoramento da Gestão e a adoção de indicadores de desempenho são associadas ao Choque de Gestão dos governos de Aécio Neves e Anastasia, ambos do PSDB.
A proposta de alfabetização na idade certa, acompanhada de suporte técnico aos municípios, é relacionada ao Programa de Intervenção Pedagógica, do governo de Anastasia. Já os Fóruns Regionais de Gestão Pública e o Observatório das Igualdades são apresentados como próximos da experiência dos Fóruns Regionais promovidos na administração de Fernando Pimentel, do PT.
O texto também identifica sobreposição com iniciativas da gestão de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD). Entre elas estão a expansão da REDESIM + Livre, o Orçamento de Base-Zero e o Plantão Digital da Polícia Civil. Para a autora, o plano não avalia os resultados, os limites orçamentários, os gargalos de execução ou as razões que levaram à interrupção de experiências anteriores.
Receita, renúncias fiscais e dívida
O candidato a vice, Luís Eduardo Falcão (PSD), é mencionado no exame do programa, que prevê renegociação da dívida estadual com a União e revisão das renúncias fiscais. A análise relaciona essas propostas às discussões do TCE-MG sobre o crescimento dos incentivos tributários e a adesão ao Propag.
Entre 2021 e 2025, o volume de renúncias fiscais alcançou R$ 25 bilhões, com crescimento real de 37,3%. Em 2025, os incentivos corresponderam a 29,2% da arrecadação de ICMS e a 21,5% da Receita Tributária estadual. A auditoria do tribunal apontou falta de estimativas formais de impacto plurianual, de memórias de cálculo verificáveis sobre neutralidade fiscal e de indicadores consolidados para medir a contrapartida socioeconômica dos benefícios.
Na avaliação de Morelo, a revisão das renúncias é uma diretriz pertinente, mas o plano não esclarece quais critérios seriam usados para manter ou eliminar benefícios. O artigo também menciona o descumprimento da meta de resultado nominal prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2025: houve déficit de R$ 18,85 bilhões, diante de uma meta de R$ 10,92 bilhões. A alteração do acordo de pagamento da dívida, concretizada no último dia de 2025, manteve Minas Gerais no Regime de Recuperação Fiscal durante o ano e reincorporou juros e amortizações não pagos ao estoque da Dívida Consolidada Líquida.
Desigualdade regional e participação popular
A proposta de regionalizar a gestão é confrontada com dados sobre a distribuição dos recursos públicos. A Região Intermediária de Belo Horizonte concentra parcela superior das despesas estaduais, inclusive por habitante, enquanto persistem assimetrias em relação ao interior.
A execução das demandas de participação popular também é apontada como baixa. Das 30 ações orçamentárias voltadas a esse atendimento em 2025, apenas 7 tiveram empenho, equivalente a 22,40% da dotação autorizada: R$ 5,58 milhões de um total de R$ 24,92 milhões. O estado atribuiu o resultado à prioridade operacional dada às emendas parlamentares impositivas.
Para a autora, a valorização dos municípios corre o risco de permanecer no campo retórico se não estiver articulada ao orçamento público. A crítica alcança ainda a previsão de rejeitar concessões rodoviárias e ampliar investimentos diretos por meio do Tesouro. Segundo a análise, 84,23% dos investimentos das estatais estaduais dependem da liquidez de empresas como Cemig e Copasa, além de recursos temporários do Acordo do Rio Doce e de royalties minerários.
O artigo observa também que a proposta de tornar o IPVA progressivo, com isenções para veículos populares, poderia reduzir a arrecadação própria em um cenário de déficit fiscal estimado na Lei Orçamentária Anual em R$ 8,59 bilhões e de Restos a Pagar superiores a R$ 9,2 bilhões. Como o imposto é compartilhado com os municípios, a medida teria impacto sobre receitas de outro ente federativo que o programa apresenta como parceiro prioritário.
Por fim, Morelo aponta que Assistência Social e Direitos da Cidadania somam apenas 0,25% da Lei Orçamentária Anual. Para ela, o plano combina uma promessa de expansão estatal com pouca clareza sobre financiamento, arrecadação, desigualdade territorial e execução orçamentária. A conclusão do artigo é que, sem enfrentar esses limites, o programa permanece genérico e sem demonstração de viabilidade prática.


