O tráfico de drogas já provoca problemas em 83,3% dos municípios brasileiros, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM). O estudo considera um universo de 5.569 cidades e aponta que 37,1% classificam o risco como alto, enquanto 43,9% avaliam o nível do problema como médio.
Os dados indicam a expansão do crime organizado para além das grandes metrópoles, com a abertura de novos mercados consumidores e a consolidação de rotas alternativas para a distribuição de substâncias ilícitas. Municípios pequenos e médios passaram a concentrar pontos de venda e ações de recrutamento de jovens, em um cenário marcado pela falta de efetivo policial e de equipamentos de segurança adequados.
Pressão sobre os serviços municipais
A saúde é a área mais afetada pela circulação de drogas, alcançando 87,7% dos municípios pesquisados. Na sequência aparecem assistência social, com 84,8%; segurança pública, com 77,6%; e educação, com 73,8%.
O relatório aponta efeitos sobre a atenção primária e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), além do aumento da vulnerabilidade social, da população em situação de rua e da desestruturação familiar. As prefeituras também enfrentam a necessidade de direcionar parte de seus orçamentos para reduzir danos sociais, em detrimento de investimentos em infraestrutura e educação.
Para o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, a resposta depende de cooperação entre os entes federativos e de financiamento contínuo. “Há, no entanto, enorme desafio à efetividade dessas políticas públicas”, afirmou.
A interiorização do tráfico também é associada à expansão da infraestrutura, da logística e do transporte. O professor Fernando Rodrigues, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, relacionou esse processo a disputas por mercados ilegais de cocaína e maconha, além de carros roubados e combustíveis, e ao avanço dos homicídios.
O professor de segurança pública da Fundação Getúlio Vargas Rafael Alcadipani afirmou que a busca por novos mercados amplia a pressão sobre a saúde e as polícias, que costumam ter menos profissionais do que os grandes centros urbanos.
Estrutura insuficiente e falta de recursos
Em 77,2% dos municípios, não existe Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas. Em 72,2%, também não há Plano Municipal de Políticas sobre Drogas, instrumento voltado à organização de ações de prevenção, cuidado, reinserção social e redução de danos.
Cerca de 88% dos municípios pesquisados não contam com Fundo Municipal de Políticas sobre Drogas, e 77% dependem de recursos próprios para executar medidas na área. Apenas 3% utilizam o Fundo Nacional Antidrogas (Funad).
A CNM identifica uma diferença entre as responsabilidades atribuídas às prefeituras e os recursos efetivamente transferidos. A entidade defende a criação de repasses diretos e regulares da União, o reforço da fiscalização das fronteiras, o apoio das polícias estaduais e o fortalecimento das redes municipais de saúde e assistência social.
Expansão das facções
O Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), já havia apontado a disseminação da violência pelo interior do país, associada à busca das facções por novas rotas e mercados.
Na Amazônia, o Comando Vermelho (CV) passou de 128 para 286 cidades entre 2023 e o ano passado, segundo o estudo Cartografias da Violência na Amazônia. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por sua vez, está presente em todas as regiões do país, atua no tráfico de drogas e ampliou seus negócios em setores lícitos. Investigações também identificaram a captura de contratos com o poder público por facções.
O levantamento da CNM registra ainda experiências municipais de prevenção e reinserção social. Em Três Palmeiras, no Rio Grande do Sul, a prefeitura criou um programa de acompanhamento de estudantes após constatar a circulação de drogas nas escolas. A iniciativa envolve escolas municipais e estaduais, entidades locais e psicólogas.
Em Picuí, na Paraíba, foi realizada este ano a 1.ª Semana Municipal de Políticas sobre Drogas. O município também participou do Projeto Reinserir, da CNM, voltado à reinserção social de usuários de drogas.


