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Raoni reúne décadas de defesa indígena, articulação internacional e resistência territorial

Liderança Kayapó participou da Constituinte, enfrentou projetos de infraestrutura e levou a defesa dos povos indígenas a outros países.

Raoni reúne décadas de defesa indígena, articulação internacional e resistência territorial

A trajetória de Raoni Metuktire atravessa a defesa dos territórios indígenas, a mobilização internacional em torno da Amazônia e a participação nas discussões que resultaram na Constituição Federal de 1988. Integrante do povo Kayapó, também chamado de Mebêngôkre, ele se tornou interlocutor entre sua comunidade e a sociedade não indígena depois de aprender português com os irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas.

Nascido por volta de 1930, em uma antiga aldeia no nordeste do Mato Grosso, Raoni teve os primeiros contatos com pessoas brancas entre 1953 e 1954. Naquele período, seu povo vivia em aldeias seminômades e mantinha distância da sociedade não indígena. A aproximação com os sertanistas marcou o início de uma atuação pública que se desenvolveu ao longo das décadas seguintes.

Da resistência territorial à Constituição

No final dos anos 1950, Raoni encontrou-se com Juscelino Kubitschek, então presidente do Brasil. Em 1964, conheceu o Rei Leopold III da Bélgica, durante uma expedição do monarca à Amazônia. Mais tarde, essas relações se ampliariam para contatos com governantes de diferentes países.

A resistência à construção da BR-080, em 1971, colocou Raoni e os Metyktire em evidência. A estrada atingiu uma área do Parque Indígena do Xingu onde viviam. Em 1984, ele passou a reivindicar a demarcação de uma parte do território Mebêngôkre, na margem direita do Rio Xingu. Raoni e seu povo apreenderam uma balsa e bloquearam por mais de um mês a BR-080, no norte do Mato Grosso.

A mobilização levou o cacique a Brasília, onde ele assinou um acordo com o então ministro do Interior, Mario Andreazza. Em suas memórias, Raoni registrou: “Mas não aceitamos sair da nossa região tradicional, e comecei a lutar em Brasília pela demarcação da nossa própria terra.”

Em fevereiro de 1985, foi homenageado pela Escola de Samba Tradição, do Rio de Janeiro, com o samba “Xingu, o pássaro guerreiro”. Também se dedicou à inclusão dos direitos fundamentais dos indígenas na Constituição Federal de 1988.

Campanhas pela Amazônia e oposição a Belo Monte

No ano seguinte, Raoni mobilizou a imprensa internacional durante o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, realizado em Altamira (PA). O encontro reuniu centenas de indígenas, representantes da mídia nacional e mundial, ambientalistas como Ailton Krenak e Marcos Terena e o cantor inglês Sting. A pauta incluía a oposição à construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu, posição que se desdobrou em uma campanha contra a Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Raoni e Sting construíram uma amizade e passaram a atuar juntos em defesa da demarcação dos territórios indígenas e da Amazônia. Os dois viajaram por 17 países, entre eles Estados Unidos e Japão. A campanha recebeu apoio de François Mitterrand, Juan Carlos, Charles da Inglaterra e do Papa João Paulo II.

Em 2019, Raoni encabeçou uma mobilização internacional contra o desmatamento na Amazônia e as ameaças atribuídas ao agronegócio, aos garimpeiros e aos madeireiros. O objetivo era buscar proteção para os territórios e fortalecimento sociocultural dos povos indígenas.

Cinema, encontros e reconhecimentos

A imagem de Raoni também alcançou o cinema. Depois de viajar ao Xingu em meados da década de 1970, o diretor belga Jean Pierre Dutilleux decidiu realizar um filme sobre o cacique e sua comunidade. O documentário Raoni foi indicado ao Oscar de 1978 na categoria de Melhor Documentário e apresentado no Festival de Cannes em 1977.

Em 2020, antes do início da pandemia de covid-19, o primeiro encontro “Chamado do Cacique Raoni” reuniu aproximadamente 600 indígenas de 45 povos na aldeia Piraruçu. A reunião expressou a posição dos povos contra a gestão federal vigente e buscou fortalecer projetos das comunidades indígenas. A segunda edição ocorreu em julho de 2023 e serviu de cenário para o documentário “O chamado do cacique: herança, terra e futuro”.

Raoni também criou o encontro anual “Em defesa da Terra”, voltado ao debate sobre demarcação de áreas indígenas e mudanças climáticas, com a participação de indígenas de várias etnias, líderes políticos e outras autoridades.

Entre os reconhecimentos recebidos estão o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Mato Grosso, em 2008; a escolha, em 2012, como primeiro indígena vivo homenageado no Prêmio Culturas Indígenas; a indicação ao Prêmio Nobel da Paz, em 2020; e o título de Membro Honorário da União Internacional para a Conservação da Natureza, em 2021. Em 2025, recebeu a Ordem Nacional do Mérito, no Grau de Grã-Cruz, e o Prêmio Cultural Liberatum, em Londres.

Vida na Terra Indígena Capoto-Jarina

Raoni vive na aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso. O território tem mais de 630 mil hectares e reúne diversas aldeias que preservam costumes do povo Kayapó. A demarcação ocorreu em 1984, após um processo de reconhecimento junto ao governo federal. A estimativa é de que 1,6 mil indígenas vivam nas aldeias da área.

O cacique pertence ao povo Kayapó, cujas aldeias estão distribuídas ao longo do Rio Xingu, no Mato Grosso. A comunidade é formada por sete subgrupos: Gorotire, Kuben-Krân-Krên, Kôkraimôrô, Kararaô, Mekrãgnoti, Metyktire e Xikrin. A pintura corporal, principalmente nas cores preta e vermelha, integra a cultura do povo e se relaciona ao comportamento social.

Na boca, Raoni usa o botoque, um disco de madeira colocado no lábio inferior. O objeto é associado à oratória e à comunicação verbal e, nas comunidades mencionadas, é usado por chefes de guerra e grandes oradores.

Raoni teve oito filhos com Bekwyjkà Metuktire, também líder indígena, que morreu aos 90 anos, em 2020. O filho mais conhecido publicamente foi Tedje Mtuktire, que presidiu o Instituto Raoni e morreu em 2004, após um acidente de carro no Mato Grosso. Beptuk Metuktire, neto do cacique, trabalha no Instituto Raoni e atua como porta-voz da família.

Em 2026, aos 94 anos, Raoni foi diagnosticado com um câncer no aparelho digestivo, um adenocarcinoma pouco diferenciado, de comportamento agressivo, na região do duodeno. Ele recebe cuidados paliativos na casa da família, no Mato Grosso, diante da impossibilidade de remoção do tumor e dos riscos relacionados à idade e a outras doenças.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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