A relação entre Bob Dylan e Gene Simmons passou de uma crítica religiosa ao Kiss para uma parceria de composição. No fim dos anos 1970 e começo dos 80, durante sua fase cristã, Dylan tratava parte do rock como sinal de decadência espiritual e incluía a banda nesse julgamento.
Em uma apresentação daquele período, o músico afirmou que quem quisesse continuar ouvindo Kiss poderia “rock and roll até o fosso”, em referência ao inferno. A declaração contrastava com a imagem da banda, marcada por maquiagem, fogo, sangue falso e teatralidade.
Anos depois, Simmons passou a citar Dylan como uma figura fundamental em sua formação. Também o chamou de “o maior letrista da cultura pop”, apesar da distância entre as letras diretas associadas ao músico do Kiss e o universo do folk ligado a Dylan.
A aproximação entre os dois ocorreu em uma sessão de composição. Simmons contou ter se surpreendido com a simplicidade do encontro: em vez da figura quase mítica que esperava, encontrou alguém disposto a se sentar e escrever. Segundo o relato do músico do Kiss, Dylan o chamou de “Mr. Kiss”, e os dois começaram a trabalhar juntos.
Uma composição em conjunto
Dessa sessão nasceu “Waiting for the Morning Light”, lançada posteriormente no álbum solo “Asshole”, de 2004. Simmons explicou que Dylan chegou com uma ideia e que a canção foi construída pelos dois, sem grande cerimônia.
Para Simmons, a importância da experiência estava também no fato de dividir uma sala com alguém que considerava uma referência absoluta de escrita. A colaboração colocou lado a lado músicos associados a trajetórias e linguagens distintas.
O encontro também marcou uma mudança em relação à crítica feita por Dylan décadas antes. O artista que havia apresentado o Kiss como exemplo de uma cultura destinada à danação acabou compondo com Gene Simmons, enquanto o integrante da banda passou a tratá-lo como mestre.



