O Carach Angren usa a figura histórica de Johann Konrad Dippel para criar, em Franckensteina Strataemontanus, uma narrativa sobre a obsessão humana em vencer a morte. Lançado em 2020, o sexto álbum da banda parte de uma teoria não comprovada que associa o teólogo, médico, alquimista e estudioso alemão à origem de Victor Frankenstein, personagem de Mary Shelley.
Dippel esteve associado ao Castelo Frankenstein, perto de Darmstadt. Ao pesquisar essa possibilidade, a própria banda incorporou elementos de sua trajetória à construção de uma história que combina horror, alquimia, necromancia, ciência proibida e pacto demoníaco.
Entre história, lenda e ficção
Antes de investigar Dippel, Ardek teve um pesadelo com um homem velho e de aparência sinistra dentro de uma casa ou castelo antigo. Mais tarde, ao encontrar uma imagem do alemão durante a pesquisa, percebeu semelhança entre o rosto retratado e a figura vista no sonho.
Na versão do Carach Angren, Dippel é apresentado como um homem determinado a criar ou restaurar a vida. A ciência, a alquimia e o conhecimento não bastam para alcançar esse objetivo. Depois de fracassar por meio da ciência e de Deus, ele abandona a fé e recorre ao Diabo em busca da imortalidade, conforme explicou Seregor em entrevista.
A banda não pretendeu fazer uma biografia histórica. A narrativa mistura fatos, lendas e ficção, além de incorporar figuras do imaginário alemão, como o Vampiro de Nuremberg. O próprio título participa desse jogo: segundo o grupo, “Franckensteina Strataemontanus” era uma designação usada por Dippel em trabalhos universitários e estaria ligada, na interpretação criada pelo álbum, à origem da palavra Frankenstein.
Um álbum sobre criação e limite
A pergunta central é quem ocupa o lugar do monstro. Dippel quer criar ou restaurar a vida; o Carach Angren, por sua vez, constrói um álbum-monstro sobre essa busca. A ideia organiza um jogo de espelhos em torno da criação, da morte e da tentativa de ultrapassar os limites da natureza.
O conceito também orienta a sonoridade. Elementos industriais, mecânicos e eletrônicos se juntam à orquestração habitual da banda para representar o encontro entre ciência, máquinas, alquimia e horror. Teclados, ruídos mecânicos, atmosferas cinematográficas e o black metal teatral formam uma espécie de laboratório amaldiçoado em funcionamento.
Na faixa-título, galvanismo, alquimia, ciência, feitiçaria, carne, ossos, necromancia e Mephistopheles aparecem integrados à narrativa. O resultado é uma obra sobre um homem que tenta se tornar semelhante a Deus e encontra, nessa busca, o preço de brincar com a morte.


