A imagem central de Dance and Laugh Amongst the Rotten é a de uma caixa que não deveria ser aberta. No álbum do Carach Angren, lançado em 2017, o objeto físico que chega às mãos do ouvinte passa a integrar a própria história: dentro dele estariam presos os espíritos libertados ao longo das faixas.
A narrativa acompanha jovens que usam um tabuleiro Ouija para tentar falar com os mortos. A entidade que responde se apresenta como Charlie, mas a aparente proximidade logo dá lugar a ameaças, hostilidade e possessão. O grupo também não consegue fechar corretamente o portal aberto durante o ritual, e a situação termina em desastre.
O disco retoma de forma evidente o universo de fantasmas, morte, fenômenos sobrenaturais e possessão do Carach Angren, depois da abordagem mais contemporânea e brutal de This Is No Fairytale (2015). As músicas se ligam por uma atmosfera comum e funcionam como cenas de uma mesma produção de horror, com personagens, acontecimentos sobrenaturais e objetos amaldiçoados.
Histórias de mortos e assombrações
A faixa “Charles Francis Coghlan” parte da história de um ator canadense que morreu em 1899 e foi enterrado em Galveston, no Texas. Depois que um furacão destruiu o cemitério, o caixão foi levado pelo mar. O corpo acabou encontrado na costa da Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, região próxima do local onde Coghlan havia nascido. A banda transforma o episódio em uma balada fantasmagórica sobre um morto que retorna pelo oceano.
Em “Blood Queen”, uma figura espectral associada à morte e à violência aparece em uma composição marcada por mudanças de andamento, orquestrações grandiosas, vocais extremos e uma atmosfera de horror gótico. “Song for the Dead”, por sua vez, assume tom elegíaco, teatral e melancólico, com maior espaço para as orquestrações.
“Opening” introduz a atmosfera de descoberta de algo antigo e proibido por meio de piano, cordas e orquestração. Em seguida, “Charlie” apresenta a entidade que desencadeia parte do pesadelo. “In de Naam van de Duivel”, expressão que significa “Em Nome do Diabo” em holandês, conduz o álbum à temática demoníaca e religiosa.
“Pitch Black Box” transforma a caixa preta em um recipiente amaldiçoado para aquilo que deveria permanecer escondido. Já “The Possession Process” mostra a garota que iniciou a brincadeira com o Ouija sendo progressivamente dominada pelo mundo espiritual. O sobrenatural deixa de estar do outro lado do tabuleiro e passa a ocupar o corpo e a realidade dos personagens.
A conclusão vem com “Three Times Thunder Strikes”, que encerra a sequência de acontecimentos. A curiosidade inicial pelo sobrenatural se converte em uma força fora de controle, enquanto a própria abertura do álbum é apresentada como uma forma de libertar o que estava aprisionado. Assim, a narrativa ultrapassa o fim da reprodução e envolve quem abre a caixa.
Piano, violinos, coros, orquestrações, efeitos sonoros, diálogos, mudanças bruscas de dinâmica e vocais extremos são usados para construir a história. Ardek conduz a trilha sonora de um filme que não existe; Seregor atua como narrador e personagem; e Namtar sustenta a bateria. O resultado é apresentado como uma experiência narrativa em que o black metal sinfônico serve também à construção de um universo de horror.


