A disputa entre Joe Strummer e Mick Jones pelo controle do Clash se agravou entre 1981 e 1983 e terminou com a saída do guitarrista, em um processo que também marcou o encerramento da formação clássica da banda. Novos detalhes do conflito aparecem em um vídeo do jornalista Júlio Ettore, baseado no depoimento de Glyn Johns, engenheiro de som convocado pela CBS para trabalhar em Combat Rock.
O relato integra a autobiografia de Johns, lançada recentemente no Brasil. O engenheiro havia trabalhado com Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Eagles, The Who e Jimi Hendrix, mas inicialmente via o punk com desdém. Ao ouvir as gravações do Clash, porém, mudou de avaliação: “foi uma agradável surpresa”, escreveu, acrescentando que havia ali um grande álbum a ser extraído.
A disputa em torno de Combat Rock
A tensão entre os dois músicos vinha do fim de 1981. Jones reivindicava ter sido o primeiro a chegar à banda; Strummer sustentava que, sem sua participação, o grupo não existiria. Em cinco anos, o Clash havia passado dos clubes de Londres à projeção internacional, enquanto o desgaste aumentava sob o efeito da exaustão, da pressão comercial, das divergências ideológicas e do abuso de drogas.
Na preparação do novo disco, Strummer e Jones decidiram produzir mixagens separadas. Influenciado por hip hop, Jones trabalhou em uma versão marcada por dance music e dub. Strummer considerou o resultado confuso, e a gravadora rejeitou o material. Johns foi então chamado para reorganizar as gravações.
Jones não compareceu à reunião marcada para discutir o trabalho. Sem a presença do guitarrista, Johns e Strummer reduziram trechos de várias faixas e conduziram o projeto para um álbum simples, em vez do disco duplo defendido por Jones. Muitas das propostas dele foram retiradas. Quando apareceu no estúdio, às sete da noite, o trabalho já estava concluído. Johns afirmou que teria considerado as sugestões caso Jones tivesse chegado às dez da manhã, como os demais.
O guitarrista decidiu não opinar mais sobre o álbum. Apesar do conflito, Combat Rock se tornou o maior êxito comercial do Clash, alcançou o top 10 dos Estados Unidos e do Reino Unido e produziu “Rock the Casbah” e “Should I Stay or Should I Go”.
O fim da formação clássica
Dias antes do lançamento, em maio de 1982, o baterista Topper Headon foi demitido por causa da dependência de heroína. Terry Chimes, integrante original da banda, assumiu a função.
A ruptura definitiva ocorreu em maio de 1983, durante o US Festival, na Califórnia. O Clash havia aceitado meio milhão de dólares para liderar o Punk Day, com a exigência de que parte do lucro fosse destinada a instituições de caridade. Depois que o acordo foi cancelado em cima da hora, o grupo ameaçou não se apresentar.
A banda entrou no palco com duas horas de atraso, diante de 140 mil pessoas. Strummer evitava a aproximação de Jones, e os dois discutiram durante as músicas. Em setembro, Strummer e Paul Simonon anunciaram a demissão do guitarrista.
A tentativa de reformulação não prosperou. Cut the Crap, lançado em 1985, teve vendas razoáveis e recepção desastrosa. O último show ocorreu em julho daquele ano, na Grécia, e a dissolução veio no início de 1986.
Jones formou o Big Audio Dynamite e continuou explorando a mistura de gêneros que defendia. Mais tarde, ele e Strummer voltaram a trocar composições. “Should I Stay or Should I Go” chegou ao primeiro lugar britânico em 1991, e os dois dividiram um palco pela última vez em 2002, poucos meses antes da morte de Strummer, em dezembro daquele ano.


