Pete Townshend não interpreta a ascensão do rap e do hip-hop como uma derrota do rock. Para o guitarrista do The Who, os gêneros passaram a exercer uma função cultural que antes estava associada ao rock and roll: falar diretamente com a rua, refletir tensões sociais e criar identificação para uma geração.
Em conversa com o Iorr, Townshend afirmou que o rock and roll nasceu como música de rua, mas que músicos brancos e seu público deixaram esse espaço. “Mas os músicos brancos e seu público deixaram de ficar na rua e começaram a ficar em restaurantes”, disse. Na avaliação dele, rap e hip-hop ocuparam o lugar deixado por essa mudança.
A leitura não coloca os estilos em oposição. Townshend considera o rap e o hip-hop continuadores de uma tarefa que o rock desempenhou em outros momentos: expressar o confronto com o mundo, traduzir a experiência social e oferecer uma forma de escape. “O rap e o hip-hop são a música da rua hoje”, declarou.
Conflito, identidade e esperança
O músico também se declarou admirador do rap e citou Eminem como um artista cuja postura se aproximava do tipo de trabalho que ele próprio buscava realizar quando era jovem. A aproximação, segundo Townshend, não estaria na sonoridade, mas na capacidade de transformar conflito, frustração e ambiente social em canções dirigidas a uma geração específica.
Essa perspectiva se relaciona à trajetória do The Who, marcada por inquietação juvenil, choque entre gerações e confronto com o mundo adulto. Para Townshend, esse impulso não desapareceu; encontrou outra linguagem.
A composição, em sua visão, não se limitava à produção de discos ou à elaboração técnica de canções. Também envolvia oferecer esperança, catarse e uma saída simbólica a quem ouvia. Em outra declaração, ele resumiu essa concepção: “Meu trabalho não era vender discos. Era dar esperança às pessoas, dar a elas algum tipo de escape”.
A fala aparece em uma entrevista daquele período e sustenta a rejeição de Townshend à ideia de que o rap ou o hip-hop tenham simplesmente matado o rock. O ponto central, para ele, é identificar qual música consegue falar diretamente com a rua em cada momento. Sua resposta é que esse papel havia mudado de mãos havia bastante tempo.


