Roger Waters nunca aceitou inteiramente que David Gilmour e Nick Mason mantivessem o nome Pink Floyd após sua saída. A principal fonte de incômodo, porém, não era apenas a continuidade da banda sem ele: era ver “The Wall”, obra associada à crítica ao rock de estádio, apresentado justamente em grandes arenas.
Durante a divulgação de “Amused to Death”, em 1992, Waters afirmou que a decisão o havia deixado profundamente abatido. “Eu escrevi 'The Wall' como um ataque ao rock de estádio”, declarou. Para ele, a banda passou a obter ganhos com apresentações que reproduziam a lógica criticada pelo álbum.
A avaliação foi acompanhada de uma acusação direta: “Eles têm que carregar a cruz dessa traição.” Waters entendia que a transformação do rock em um espetáculo de grandes dimensões, marcado pelo distanciamento entre artistas e público e pelo peso da produção visual, contrariava a concepção da obra.
A crítica ao espetáculo
Desde o fim dos anos 1970, Waters demonstrava desconforto com a expansão do rock para formatos cada vez maiores e mais impessoais. “The Wall” incorporou esse conflito ao levar ao extremo a ideia de separação entre palco e plateia.
A trajetória do Pink Floyd depois da saída de Waters seguiu direção oposta. A turnê de “A Momentary Lapse of Reason” reuniu Gilmour, Nick Mason e Richard Wright diante de multidões, em shows de grande escala que incluíam músicas do período liderado por Waters. Na leitura do músico, a banda transformava em espetáculo a crítica contida na própria obra.
Andy Fairweather Low, que trabalhou com Waters, observou posteriormente que a continuidade do Pink Floyd também mantinha as músicas do compositor em circulação, já que a banda continuava apresentando esse repertório. Waters, contudo, não considerava isso uma compensação.
Ele também classificava o rock de estádio como “genuinamente horrível” e comparava esses eventos a grandes reuniões comerciais, nas quais dezenas de milhares de pessoas compravam cachorro-quente e camisetas enquanto acompanhavam ocasionalmente as imagens exibidas em telões. Para Waters, o Pink Floyd havia usado uma obra criada contra determinada lógica do rock para alimentar essa mesma lógica.


