O cripface — escalação de artistas sem deficiência para interpretar personagens com deficiência — é debatido por profissionais da cultura como uma prática que afeta a representatividade e o acesso ao trabalho. Para Paulo Fabião, jornalista, escritor, ativista e palestrante, a deficiência não deve ser tratada como uma característica a ser simulada por intérpretes sem deficiência.
Fabião é autor de três livros: Capacitismo em toda parte o tempo todo e Crônicas de um humorista fracassado, lançados em 2026 pela editora Uiclap, além de O Incluso, publicado pela editora Kotter em 2020. Ele também relata ter deixado de atuar como comediante por causa da falta de acessibilidade em espaços culturais.
“Cripface é mais uma prática capacitista normalizada”, afirma. Na avaliação do escritor, a questão envolve não apenas a representação de pessoas com deficiência, mas também as oportunidades de trabalho, que ele considera escassas para esse grupo. Ele compara a prática ao blackface, condenado no meio artístico, e questiona a aceitação do cripface.
Acessibilidade e trabalho
Fabião afirma que alguns espaços permitem a entrada de pessoas com deficiência, mas não oferecem condições para que elas subam ao palco. Ele diz que, em determinadas situações, artistas aceitam ser carregados como forma de protesto porque temem perder oportunidades caso reivindiquem acessibilidade.
Na avaliação dele, essa solução mantém a falta de estrutura e ainda envolve risco físico. O carregamento pode resultar em queda ou acidente, enquanto a acessibilidade continua sendo tratada como gasto, e não como investimento.
A curadora e idealizadora do Acessa BH, Laís Vitral, também relaciona o debate à representatividade e ao acesso a oportunidades. Para ela, a discussão sobre o cripface levanta uma questão legítima sobre a presença de pessoas com deficiência nas produções culturais.
Presença em diferentes linguagens
Fabião rejeita o argumento de que artistas com deficiência não poderiam desempenhar determinadas funções em cena. Ele cita Edu O., que considera um mestre em dança, e Nelson Ned, cantor com desplasia e uma das maiores vozes do país.
“Dizer que pessoas com deficiência não podem cantar ou dançar é o mesmo que dizer que negros não podem ser médicos ou gerentes de banco”, diz. Para o escritor, negar essas possibilidades não tem base lógica e expressa preconceito.
Ele defende que atores com deficiência sejam chamados para interpretar personagens com deficiência, por se tratar de uma característica natural do corpo, e não de algo que deva ser reproduzido por meio da atuação. Segundo Fabião, mesmo produções sérias podem transformar a deficiência interpretada em chacota ou deboche.


