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Betty Milan relaciona literatura, liberdade e risco de escrever

Em entrevista, escritora também fala sobre Lacan, machismo, redes sociais, inteligência artificial e um romance sobre a pandemia.

Betty Milan relaciona literatura, liberdade e risco de escrever

A escritora, ensaísta e psicanalista Betty Milan afirma que a literatura depende da liberdade de expressão e não pode se submeter às exigências do mercado ou à lógica das redes sociais. Para ela, a atividade literária exige tempo, preservação do estilo e disposição para afrontar convenções. “A Literatura não existe sem ousadia”, declarou.

Milan também critica a ideia de que um escritor deva ser necessariamente atual, no sentido de acompanhar as redes e as tendências de comunicação. Ela distingue modernidade de atualidade e cita Victor Hugo, Flaubert, Baudelaire, Oswald e Mario de Andrade como autores modernos. Embora use as redes para divulgar valores, considera que esse trabalho pertence ao campo da comunicação, e não ao da literatura.

Entre medicina, psicanálise e escrita

A escritora conta que desejava escrever desde menina, mas cursou Medicina por influência familiar. Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo aos 18 anos, quando havia cinco mulheres em uma turma de cem. Ainda no início da graduação, começou a estudar Psicanálise em um grupo formado por Regina Schneiderman e fez análise com Isaías Melsohn.

Depois de uma tentativa frustrada de formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise, que atribui à orientação behaviorista dos didatas e ao autoritarismo, Milan seguiu para a França. Ela descreve Paris como o lugar em que pôde se formar como psicanalista e escrever com liberdade. Trabalhou com Jacques Lacan de 1974 a 1978, em sessões de análise nas quais falava livremente e interpretava o corte feito por ele.

A experiência está registrada em Lacan ainda. A edição brasileira saiu pela Companhia das Letras; posteriormente, o livro foi publicado em francês, espanhol, inglês, turco e árabe. Nos Estados Unidos, a publicação ficou a cargo da Bloomsbury. A repercussão também se relaciona à adaptação cinematográfica de sua peça Adeus Doutor, transformada por Richard Ledes no filme Adieu Lacan.

Milan afirma que a análise a ajudou a aceitar suas origens e seu sexo, além de superar a autoxenofobia e a desqualificação do sexo feminino presentes na colônia árabe. Neta de imigrantes libaneses, recorda que seu avô materno lamentou seu nascimento por ela ser menina e ressalta que teve um pai feminista.

A linguagem na clínica e na ficção

Para a escritora, abordagens terapêuticas que ignoram o inconsciente não produzem uma mudança verdadeira. Ela diferencia a teoria, relacionada à ciência, da prática analítica, que considera uma arte. Em sua avaliação, a cura envolve uma epopeia subjetiva capaz de permitir ao analisando uma reinvenção.

O primeiro texto de ficção de Milan foi O Sexophuro, depois incorporado à Trilogia do amor. A obra recebeu elogios de Boris Schnaiderman e Leila Perrone Moisés e deu origem ao primeiro livro cassete feito no Brasil, Uma mulher, dito pela atriz Nathália Timberg. Mais tarde, Timberg encenou Paixão em vários estados do país.

O Papagaio e o Doutor, seu segundo texto de ficção, foi inspirado na análise com Lacan e levou cinco anos para ser escrito. O romance foi publicado inicialmente no Brasil, teve repercussão após um texto de Zé Celso e permaneceu censurado durante anos na França pelos herdeiros de Lacan. A autora afirma que a obra será lançada na Inglaterra pela Routledge e relaciona o livro à sua própria história, assim como Baal, finalista do prêmio Oceanos e vencedor do Cedro do Líbano.

Milan sustenta que a experiência da linguagem é central na clínica lacaniana. Ao comentar um episódio conhecido sobre um trocadilho de Lacan, ela associa o caso à concepção de que o inconsciente é estruturado como linguagem. Segundo ela, existem apenas dois testemunhos de análise com Lacan: o seu e o de Gérard Hadad.

Poder, machismo e compromisso literário

Ao tratar da violência contra as mulheres, Milan afirma que o poder e o machismo têm em comum o caráter dogmático. Ela menciona Manhas do poder, livro dedicado ao funcionamento do poder, e uma série de vídeos sobre amor e machismo que será apresentada em um evento da Academia Paulista de Letras no dia 12 novembro, com Djamila Ribeiro e Renato Nalini.

A escritora também rejeita a ideia de que o estupro possa ser considerado uma arma de guerra legítima. Para ela, a própria guerra já constitui um crime e sua normalização revela indiferença à vida.

Sobre a literatura ideologicamente engajada, Milan diz que o compromisso do escritor deve ser com a verdade, não com uma ideologia específica. Ao comentar Milan Kundera e Marcel Proust, associa o humor, a crítica literária e a busca da verdade à construção de uma obra que não se reduza ao panfletarismo.

Ela considera que o privilégio do mercado e o wokismo se opõem à liberdade necessária à literatura. Recorda que Flaubert foi processado por Madame Bovary e Baudelaire, condenado por As Flores do Mal. Também menciona a perseguição e a prisão de Graciliano Ramos durante o governo de Getúlio Vargas e define Memórias do Cárcere como uma obra precursora de O Arquipélago Gulag, de Soljenítsin.

Novos projetos e inteligência artificial

Milan trabalha há anos em um romance sobre o negacionismo durante a pandemia e seus efeitos. A obra terá um aspecto político, mas a escritora afirma não saber quais serão seus desdobramentos e espera concluí-la este ano.

Para ela, a intolerância existe porque as pessoas tendem a gostar espontaneamente do semelhante e não são educadas para respeitar a diferença ou controlar as pulsões. A polarização, em sua leitura, decorre do fanatismo, efeito da ignorância.

Sobre a inteligência artificial, Milan afirma que a grande literatura continuará a se impor, embora escritores possam precisar ocupar as redes. Ela comenta C'était ça ou mourir, de Aurélien, publicado pela Grasset, romance sobre um migrante haitiano que atravessa a América do Sul, a América Central e a América do Norte até chegar ao Canadá. Embora o livro seja atribuído à inteligência artificial, a escritora duvida dessa autoria integral. Para ela, a tecnologia faz colagens, mas não cria algo verdadeiramente novo, pois a criação depende também do corpo humano.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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