A composição genética da população brasileira apresenta um desequilíbrio entre as linhagens paternas e maternas, segundo estudo publicado em 2025 na revista Science. A pesquisa identificou predominância europeia nos cromossomos Y, transmitidos pela linhagem paterna, enquanto o DNA mitocondrial, herdado pela linhagem materna, tem maior presença de ancestralidades africana e indígena.
Os cromossomos Y analisados são 71% de origem europeia. Já o DNA mitocondrial apresenta 42% de ancestralidade africana e 35% indígena. Para a geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), o resultado indica um padrão histórico de reprodução assimétrica entre homens europeus e mulheres negras e indígenas.
Duas interpretações sobre a miscigenação
A leitura genética se tornou parte de uma divergência acadêmica mais ampla. Geneticistas sustentam que a formação miscigenada do país foi majoritariamente marcada pela violência sexual praticada por homens brancos contra mulheres negras e indígenas. Historiadores, por outro lado, apontam documentos que registram arranjos e redes familiares inter-raciais estáveis e consensuais desde o século 16.
Mary Del Priore e Gian Melo organizaram Histórias das Mestiçagens do Brasil, livro lançado na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e publicado pela Ed. Unesp. A obra reúne textos de 20 autores e defende que a miscigenação brasileira não pode ser explicada exclusivamente pela violência. A organização da Bienal providenciou segurança especial para os autores após ameaças.
Lygia afirma que as duas interpretações não são necessariamente incompatíveis. Relações consensuais dentro de famílias podem ter se tornado mais frequentes posteriormente, sobretudo depois do fim da escravidão, sem eliminar a marca genética deixada pela violência dos períodos anteriores.
O que os cromossomos indicariam
De acordo com a geneticista, a predominância europeia entre os cromossomos Y não corresponde ao peso demográfico dos grupos presentes no início da colonização. Ela questiona por que os homens indígenas e de ancestralidade negra não transmitiram seus cromossomos Y em proporção semelhante à dos homens brancos, se eram mais numerosos naquele momento.
A análise considera que a ocupação do território a partir do século 16 foi acompanhada pelo extermínio de mais de 90% da população indígena e pela escravização forçada de mais de cinco milhões de africanos de diferentes partes do continente para o Brasil. Para Lygia, essa história demográfica deixou no genoma uma marca que permanece.
O perfil genético seria diferente caso a miscigenação tivesse ocorrido de forma menos assimétrica: os cromossomos Y de ancestralidades europeia, indígena e negra apareceriam em proporções mais próximas. A pesquisadora afirma que os dados biológicos apontam que homens brancos tiveram mais oportunidades de se reproduzir do que homens negros e indígenas, apesar de estarem em minoria.
Marcas que permanecem
Os historiadores não negam a ocorrência de violência, mas sustentam que documentos comprovam relações inter-raciais consensuais. Para Lygia, esses relacionamentos podem ter ocorrido em outro momento, quando a estrutura genética já havia sido formada ao longo de pelo menos uns três séculos de colonização violenta.
A geneticista cita a existência de negros quilombolas com ancestralidade branca como exemplo de que relações posteriores não apagam as consequências genéticas do processo histórico. Para que outras ancestralidades passassem a aparecer em maior proporção nos cromossomos Y, seria necessário, segundo ela, um influxo significativo de homens africanos no Brasil.


