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O Conto da Aia expõe como o autoritarismo pode se tornar rotina

A série encerra sua trajetória após seis temporadas, preservando a força visual e política da obra de Margaret Atwood apesar da repetição narrativa.

O Conto da Aia expõe como o autoritarismo pode se tornar rotina
Foto: Disney/Hulu

A força de O Conto da Aia não está em prever um futuro específico, mas em reorganizar elementos reconhecíveis da história. Na obra de Margaret Atwood, Gilead surge da concentração de poder, da perseguição política, do controle sobre a vida das mulheres e da transformação de uma interpretação religiosa em base para as instituições do Estado.

A adaptação protagonizada por Elisabeth Moss terminou em 2025, depois de seis temporadas. O encerramento não elimina os problemas acumulados ao longo da produção: a série repete conflitos, prolonga trajetórias e, em alguns momentos, faz do sofrimento das personagens um recurso recorrente. Ainda assim, poucas produções recentes discutiram poder, religião, direitos individuais e autoritarismo com uma construção visual tão reconhecível.

A primeira temporada e a gramática de Gilead

A temporada inicial adapta grande parte do romance publicado por Atwood em 1985 e apresenta uma sociedade em que figurino, arquitetura, enquadramento e cor indicam a posição de cada pessoa. As Aias usam vermelho; as Esposas, azul; as Marthas, verde; e os homens associados às estruturas de comando aparecem em tons escuros. A paleta converte indivíduos em categorias sociais.

O medo também se estabelece pela normalidade. Cerimônias, mercados, escolas e residências funcionam dentro de uma ordem que restringe legalmente a autonomia feminina. A ameaça, portanto, não depende da violência explícita em todas as cenas, mas da rotina organizada por instituições que tornam a opressão parte do cotidiano.

Elisabeth Moss sustenta essa tensão por meio de reações discretas. June precisa exibir submissão diante dos demais personagens, enquanto o rosto da atriz e a narração revelam o conflito entre aquilo que a protagonista demonstra e o que pensa.

Depois que o material do romance se esgota, Bruce Miller e os roteiristas ampliam personagens, conflitos e instituições. A expansão inicialmente aprofunda figuras como Serena Joy, Tia Lydia, Emily e Janine. Com o tempo, porém, a permanência de June no centro da narrativa cria um ciclo previsível de resistência, fuga, captura e novo confronto.

A repetição reduz parte do impacto dramático. A violência deixa de ser sempre um acontecimento e passa, em determinados momentos, a operar como engrenagem do roteiro. A produção mantém a qualidade visual e um elenco consistente, mas poderia ter concentrado seus conflitos em menos episódios.

Serena Joy e a contradição do poder

Serena Joy oferece uma perspectiva diferente da de June. Ela participa intelectualmente da construção de Gilead e defende valores usados para restringir a autonomia de outras mulheres. Depois que o regime se consolida, descobre que sua posição social não lhe garante liberdade para ler, escrever ou decidir sobre aspectos centrais da própria vida.

Yvonne Strahovski interpreta essa contradição sem reduzir a personagem a uma única dimensão. Serena pode despertar compaixão e, pouco depois, lembrar sua participação direta na violência sofrida por June. Essa instabilidade moral faz dela uma das figuras mais complexas da série.

Religião, lei e autoridade

A série não se resume a uma crítica ao cristianismo. O conflito central está no uso político de uma leitura religiosa convertida em norma para limitar escolhas individuais e concentrar autoridade. Em Gilead, trechos bíblicos são selecionados, cerimônias são instituídas e hierarquias são organizadas para dar aparência de legitimidade a decisões políticas e sociais.

Os dirigentes do regime também violam os princípios morais que afirmam defender. A religião funciona, nesse universo, como instrumento de legitimação institucional, fundindo crença, autoridade política e imposição legal.

Por isso, a distopia não depende de tecnologia futurista. Sua força vem da reorganização de instituições reconhecíveis sob uma nova estrutura de poder.

Um encerramento sem vitória completa

A sexta temporada não apresenta uma vitória definitiva. Algumas estruturas do regime são atingidas, personagens chegam a pontos importantes de suas trajetórias e June avança em sua resistência, mas Gilead não desaparece com o episódio final.

A escolha preserva a lógica construída desde o início. Depois de acompanhar a dimensão política, militar e social do regime, resolver sua existência por meio de uma única ação revolucionária reduziria o peso atribuído àquele sistema.

O encerramento também abre espaço para Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, produção baseada no segundo romance de Atwood. A história acompanha Agnes Mackenzie e Daisy, uma nova geração de personagens que observa Gilead a partir de outra experiência. A série está disponível no Disney+.

A mudança de protagonistas pode permitir que o universo continue sem recolocar June nos mesmos conflitos. No Brasil, O Conto da Aia aparece em serviços como Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, Paramount+ e Globoplay, além de opções associadas à Amazon e à Apple TV, conforme consulta realizada em setembro de 2026. A disponibilidade dos catálogos deve ser conferida no momento do acesso.

A produção encontra seus melhores momentos nas primeiras temporadas, apoiada pelas atuações de Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski e Ann Dowd e por uma direção visual que transforma a organização social em imagem. O ritmo se perde em parte do percurso, mas isso não apaga a força da fase inicial nem a importância das personagens desenvolvidas ao longo das seis temporadas.

O ponto central permanece na forma como mudanças apresentadas como temporárias ou aceitáveis se acumulam até modificar por completo as instituições. A pergunta deixada pela série não é se Gilead poderia existir exatamente daquela maneira, mas quanto uma sociedade pode mudar antes de seus habitantes perceberem que o mundo em que viviam já deixou de existir.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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