A trajetória de Dalmo Medeiros passou por uma mudança de função: o cantor que integrou o Céu da Boca acabou encontrando nos estúdios uma parte importante de seu trabalho musical. Em entrevista ao podcast Corredor 5, ele afirmou que o grupo vocal não alcançou um público amplo porque as gravadoras direcionaram sua atenção ao rock brasileiro em meados dos anos 80.
"O Céu da Boca era um grupo que eu acho que só não fez mais sucesso porque no meio dos anos 80 as gravadoras viraram pro rock", disse Medeiros. Na avaliação do músico, a ascensão de Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Kid Abelha e Biquíni alterou o espaço disponível para conjuntos vocais como o Céu da Boca. O grupo chegou a gravar dois discos antes dessa mudança no mercado.
Da formação ao trabalho de estúdio
O conjunto nasceu na escola de música Pró-Arte, a partir de uma separação no coral conduzido por Joaquim Moraes. Doze cantores interessados em fazer música brasileira formaram o Desbundetes, com seis homens e seis mulheres. Mais tarde, a formação passou a ter dez integrantes, e o grupo adotou o nome Céu da Boca.
O primeiro álbum foi independente, quase todo a capela, e teve produção de João Mário, que também cuidava do Boca Livre naquele período. Sem ocupar as prioridades das gravadoras, o grupo passou a atuar como formação vocal de estúdio e a gravar para outros artistas.
Medeiros cita trabalhos com Ivan Lins e Joyce, além da participação em "O Grande Circo Místico", de Edu Lobo e Chico Buarque. O Céu da Boca também dividiu um bloco vocal com o Roupa Nova em um disco de Elba Ramalho. O cantor afirma que o grupo era conhecido entre profissionais da música, mas não tinha o mesmo reconhecimento entre o público em geral.
A remuneração das sessões contribuía para a atividade. Os cantores recebiam por período de gravação, e cada dobra de voz sobre a própria faixa gerava um novo pagamento integral. Segundo Medeiros, o Céu da Boca passou quase um mês no estúdio para participar do disco instrumental de César Camargo Mariano, registrado no lugar de um projeto que seria de Elis Regina. O dinheiro recebido foi usado na reforma de uma casa em Botafogo.
A mudança para Salvador
Medeiros viveu 13 anos na Bahia e afirma ter participado de cerca de 400 discos, incluindo jingles políticos, trabalhos de axé e sessões para artistas locais. A carreira como compositor ganhou impulso depois que nove músicas suas foram incluídas em um carnaval e Elba Ramalho escolheu um frevo de sua autoria para abrir um álbum.
Na sequência, ele assinou contrato de exclusividade com a BMG e comprou um apartamento com o adiantamento. O rock reapareceu em sua trajetória no primeiro disco solo, lançado no fim do ano passado e financiado por campanha coletiva. Serginho Vulcanes, do Hanói-Hanói, toca guitarra em "Proibir Para Quê?" e "A Flor da Pele". O álbum reúne músicas inéditas e faixas que Medeiros já havia gravado com outros artistas ao longo da carreira.


