BELO HORIZONTE — O catálogo da Cogumelo Records reúne parte da trajetória do metal brasileiro e ajuda a preservar a memória de uma cena que se formou em Belo Horizonte. Em 2023, a empresa publicou o “Catálogo Cogumelo 40 Anos”, com 204 páginas sobre a história do selo e um DVD de um show realizado em 1986, na cidade, com Sepultura, Overdose e Mutilator.
A Cogumelo continua funcionando no Centro de Belo Horizonte, com venda de discos, CDs, fitas, livros e revistas. O selo também segue ligado a estilos como death metal, thrash metal e black metal, além de trabalhar no resgate de títulos históricos de seu próprio acervo.
Registros de uma cena em formação
A empresa começou como loja especializada em rock, aberta por João Eduardo de Faria Filho e Creusa Pereira de Faria, a Pat, em 12 de agosto de 1980. Naquele período, discos importados eram difíceis de encontrar, e a internet ainda não existia. Fitas, revistas, fanzines, cartas e o contato entre fãs eram caminhos para conhecer bandas, trocar gravações e organizar shows.
O endereço se tornou ponto de encontro de músicos e admiradores de rock e heavy metal. Nesse circuito estavam grupos como Sepultura, Sarcófago, Overdose, Chakal, Mutilator e Holocausto. A loja acompanhou o crescimento dessas bandas e passou a atuar também como selo fonográfico em 1985.
Seu primeiro lançamento foi “Bestial Devastation / Século XX”, split que reunia Sepultura e Overdose. Depois, a Cogumelo lançou “Morbid Visions”, em 1986, e “Schizophrenia”, em 1987, ambos do Sepultura. O selo também colocou nas lojas “Warfare Noise I”, coletânea de Sarcófago, Chakal, Mutilator e Holocausto.
Do circuito mineiro ao exterior
Em 1987, o Sarcófago lançou pela Cogumelo o álbum “INRI”, que se tornaria referência para o black metal e outras vertentes extremas. A partir de Belo Horizonte, o selo ampliou sua rede e incorporou ao catálogo nomes como Ratos de Porão, Dorsal Atlântica, Vulcano, Lobotomia, The Mist, Sextrash, Drowned, Impurity e Headhunter D.C.
Antes das plataformas digitais, os discos circulavam por lojas especializadas, colecionadores, contatos e correspondências. Esse sistema permitiu que produções de diferentes estados chegassem a outros públicos e atravessassem fronteiras. A Cogumelo ajudou a registrar uma cena que, além de formar bandas, criou uma rede de circulação para o metal brasileiro.
Continuidade e memória
A loja atravessou mudanças na indústria musical, do domínio do vinil e do CD aos arquivos digitais, ao streaming e às redes sociais. Enquanto preserva gravações associadas ao surgimento do metal brasileiro, mantém a atuação independente e a venda de produtos relacionados à música.
Em Minas Gerais, tramita uma proposta para instituir o Dia Estadual do Heavy Metal, em referência ao lançamento de “Morbid Visions”, do Sepultura, em 1º de novembro de 1986. A iniciativa se relaciona à trajetória de uma cena cuja história passa pela Cogumelo, pelas bandas que frequentaram o espaço, pelos shows e pelas fitas demo.
A empresa nasceu como loja de discos e incorporou a função de gravadora quando seus responsáveis perceberam a necessidade de registrar as bandas que se formavam ao redor dela. Desde então, seu acervo passou a reunir lançamentos, coletâneas e trabalhos que documentam diferentes momentos do rock pesado brasileiro.


