Humberto Gessinger questionou a reputação de “Live and Dangerous”, álbum duplo do Thin Lizzy frequentemente considerado um dos grandes discos ao vivo da história do rock. Em entrevista ao podcast Corredor 5, o músico afirmou que declarações do produtor Tony Visconti levantam dúvidas sobre a quantidade de playback presente no registro.
Visconti, que também era baixista e produzia os discos de David Bowie, teria mencionado em entrevistas diferentes percentuais para o material que não corresponderia a uma execução integralmente ao vivo. Gessinger relatou que o produtor primeiro falou em 20%, depois em 30% e, por fim, em 70%. O comentário surgiu durante uma explicação sobre a decisão do músico de não transformar seus próprios discos ao vivo em coleções dos maiores sucessos dos Engenheiros do Hawaii.
Sucessos fora dos discos ao vivo
Gessinger disse que essa escolha já lhe rendeu a fama de autossabotador. “Alívio Imediato”, o primeiro álbum ao vivo da banda, não incluiu “Segurança”, música que havia alcançado grande repercussão ao menos no Sul. Mais tarde, “Filmes de Guerra, Canções de Amor” também deixou de fora canções associadas ao sucesso de “O Papa É Pop”.
O músico reconheceu que poderia ter usado o projeto semiacústico como uma versão desplugada daquele repertório. Ainda assim, criticou a lógica das gravadoras, que costumam esperar um disco ao vivo baseado em sucessos capazes de impulsionar as vendas. Quando o artista muda de selo, a nova empresa também quer incluir as músicas vinculadas ao próprio catálogo.
Para Gessinger, a justificativa de que um álbum de palco se sustenta pela emoção da performance não explica inteiramente o interesse do mercado. Na avaliação apresentada na entrevista, esses discos acabam funcionando como compilações de êxitos — uma fórmula que ele diz ter evitado deliberadamente.
Inéditas e repertório menos óbvio
O músico também afirmou que procurava incluir faixas inéditas nos lançamentos, contrariando a orientação de reservar músicas novas para trabalhos posteriores. Com o tempo, segundo ele, essa opção trouxe resultados. No “Acústico MTV”, resgatou “Dom Quixote”, parceria com Paulo Galvão lançada em “Dançando no Campo Minado”. A canção ainda não havia sido apresentada ao vivo, mas hoje, de acordo com Gessinger, o público canta a letra inteira nos shows.
Ele define essas músicas menos previsíveis como oxigênio e compara o repertório a uma jazida de petróleo: quando administrado de maneira racional demais, pode se esgotar.


