Mais de 50 mil pessoas chegaram a comprar ingressos para ver o Kiss na Argentina, mas os shows previstos para agosto de 1983 não aconteceram. A banda desistiu das apresentações depois que um grupo ligado à extrema-direita ameaçou explodir o estádio do Boca Juniors e os pontos de venda das entradas.
As apresentações seriam realizadas nos dias 19, 20 e 21 de agosto, na Bombonera, estádio do Club Atletico Boca Juniors. A venda dos ingressos havia começado, e também circularam pôsteres alusivos ao evento. A ameaça partiu do grupo 2 de abril, nome associado ao início da Guerra das Malvinas e ao feriado nacional argentino dedicado aos mortos no confronto contra a Inglaterra.
Ameaças e tentativa de segurança
Em 27 de julho de 1983, o jornal La Razón publicou que o suposto comando clandestino pretendia explodir o estádio caso a presença do Kiss fosse confirmada. O grupo também ameaçou os locais de venda de ingressos e classificou os músicos com ofensas relacionadas a drogas, sexualidade e comportamento.
Dias depois, ex-combatentes se manifestaram contra a chegada da banda por meio de um artigo que defendia a proibição de atrações que, na avaliação deles, não contribuíssem para a cultura do país.
A Demorcs Producciones, promotora dos shows, enviou um fax ao Kiss assegurando que haveria uma operação de segurança. Uma coletiva na Bombonera reuniu ex-combatentes, representantes da empresa, integrantes do grupo Riff — que faria a abertura — e o secretário adjunto do Boca Juniors. A intenção era esclarecer as dúvidas levantadas sobre o evento, mas a iniciativa não levou à confirmação das apresentações.
O Kiss, que procurava se manter distante de disputas políticas, decidiu não prosseguir. Os músicos não quiseram assumir o risco, e o equipamento utilizado nos shows brasileiros ficou retido na alfândega. Em 9 de agosto, a banda comunicou à Polygram Argentina, responsável pela promoção de seus discos no país, e à Democrs a rescisão do contrato.
Cancelamento, adiamento e reembolso
A justificativa oficial apresentada no comunicado foram problemas técnicos. O documento informava o cancelamento das apresentações e orientava que o dinheiro arrecadado fosse devolvido imediatamente aos compradores. Gene, Paul, Vinnie e Eric também lamentavam não poder tocar para os fãs argentinos.
No dia seguinte, um dos sócios da Demorcs renunciou. Outra conferência anunciou que os shows seriam adiados para setembro e que parte da renda seria destinada à Cruz Vermelha Argentina. Muitos fãs mantiveram os ingressos na expectativa da nova data.
Depois, foi definido que metade do valor seria devolvida em agosto, enquanto um vale garantiria o reembolso integral no mês seguinte. Apenas alguns compradores conseguiram recuperar a primeira parcela; depois de alguns dias, o valor já não representava nada para a maioria dos que aguardavam a devolução.
A estreia argentina
O Kiss só tocou pela primeira vez na Argentina em 1994. Naquele ano, a banda também participou da primeira edição do Monsters of Rock, em São Paulo. Em Buenos Aires, realizou 5 shows, intercalados por uma apresentação no México, nos dias 3, 5, 14, 15 e 16 de setembro.
A primeira dessas apresentações ocorreu no Monumental de Nuñez, estádio do River Plate. As demais foram realizadas no Obras Sanitarias, ginásio utilizado para partidas de basquete, vôlei e outros esportes.


