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Atlas decifra códigos e imagens usados para disseminar antissemitismo nas redes

Publicação reúne 39 tropos antissemitas e mostra como símbolos, memes e teorias conspiratórias reaparecem no ambiente digital.

Atlas decifra códigos e imagens usados para disseminar antissemitismo nas redes
Foto: Taba Benedicto/Estadão

Um atlas dedicado ao antissemitismo digital reúne imagens, símbolos e referências que ajudam a identificar formas codificadas de ódio contra judeus. A publicação apresenta 39 tropos — padrões recorrentes de preconceito — e explica como antigas narrativas reaparecem em memes, charges, caricaturas, analogias e comentários disfarçados nas plataformas digitais.

A obra foi inspirada no Atlas Mnemosyne, de Aby Warburg, e no livro Dez Mitos Sobre os Judeus, da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro. O projeto tem entre suas autoras a antropóloga Anelise Fróes, coordenadora do projeto nacional de combate ao antissemitismo, além de Bruno Cardoni Ruffier e Matheus Alexandre.

“Se aprendo o que é, faço o enfrentamento com melhor qualidade”, afirma Anelise. A proposta é contextualizar a origem dos mitos, acompanhar suas transformações e oferecer elementos para que o público reconheça conteúdos usados para culpar, desumanizar ou demonizar judeus.

Códigos e estereótipos

Entre os recursos analisados estão os chamados apitos de cachorro: mensagens compreendidas por grupos familiarizados com determinado código, mas que podem passar despercebidas para outras pessoas. Um nariz, por exemplo, pode remeter a um estereótipo antijudaico.

O número 271 aparece associado à negação do Holocausto. Antissemitas afirmam, sem provas ou evidências científicas, que o total de judeus mortos teria sido inferior aos 6 milhões reconhecidos como vítimas do genocídio, apontando 271 mil como suposta cifra.

Outro código mencionado é o uso de emojis de caixas de suco. Rony Vainzof, diretor da política nacional de enfrentamento ao antissemitismo da Conib, explica que juice, palavra inglesa para suco, tem pronúncia semelhante a jews, termo em inglês para judeus. Assim, o recurso permite fazer referência a judeus sem escrever diretamente a palavra, numa tentativa de evitar filtros de moderação.

O atlas também examina a ideia de que judeus exerceriam influência desproporcional sobre a política, a economia e a cultura. Nessa construção antissemita, eles podem ser retratados não como um grupo inferior, mas como uma elite oculta com poder excessivo e intenção opressora.

Uma das imagens analisadas mostra Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, manipulando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, como uma marionete. Para Anelise, a representação de judeus como controladores de governos, riquezas, instituições e acontecimentos antecede a criação do Estado de Israel, em 1947.

A demonização constitui outro padrão histórico descrito na publicação. Ela associa judeus ao diabo, a pactos demoníacos e a uma suposta intenção de destruir o cristianismo. Essa formulação ganhou força no antijudaísmo cristão da Idade Média, com interpretações de textos do Novo Testamento da Bíblia e escritos que vinculavam judeus e sinagogas a satanás.

Dados sobre a circulação digital

O lançamento ocorre em meio ao crescimento de manifestações antissemitas nas plataformas. O Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, da Conib, registra que 80,9% das ocorrências no País ocorreram em ambientes digitais. O levantamento identificou 115.970 menções classificadas como antissemitas, com alcance potencial estimado em 66 milhões de pessoas.

Em 2025, foram registrados 989 casos, número 149% maior que o de 2002, quando começou a série histórica. Os dados também indicam subnotificação: 32,58% das pessoas procuram organizações de apoio ao presenciar um ato antissemita, enquanto 59% mantêm o episódio no âmbito privado.

A iniciativa integra um projeto permanente da Conib voltado à pesquisa, ao monitoramento e ao enfrentamento do antissemitismo, com ações de educação, formação, acompanhamento e advocacy. Rony Vainzof defende uma moderação mais eficiente das plataformas e afirma que o problema também aparece em áreas de comentários de reportagens e artigos.

Ele propõe ainda o uso do conteúdo do atlas no treinamento de ferramentas de inteligência artificial, com o objetivo de aprimorar a identificação e o combate a conteúdos ilícitos.

Além da edição impressa, o projeto oferece acesso digital gratuito em combateaoantissemitismo.org.br. O site disponibiliza o conteúdo integral, permite consultar os diferentes tropos e reúne murais com mais de duas mil imagens, podcasts e videoaulas.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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