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Mary Del Priore defende novas leituras sobre a mestiçagem brasileira

Historiadora afirma que a formação mestiça do país não pode ser explicada apenas pela violência colonial e relata ameaças durante lançamento de livro.

Mary Del Priore defende novas leituras sobre a mestiçagem brasileira
Foto: Felipe Rau/Estadão

A historiadora Mary Del Priore afirma que a mestiçagem brasileira não pode ser definida exclusivamente pela violência sexual praticada durante o período colonial. Em História das Mestiçagens do Brasil, obra organizada por ela e pelo historiador Gian Melo, 20 autores reúnem pesquisas documentais sobre a formação da população parda e mestiça do país.

O livro foi lançado neste mês durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A organização do evento providenciou segurança para os autores depois que Mary Del Priore e Gian Melo receberam ameaças, insultos e palavrões. A historiadora disse não esperar uma reação tão intensa e defendeu a universidade como espaço de debate e liberdade.

Famílias e redes de sobrevivência

A obra sustenta que, desde o século XVI, a mestiçagem também se formou por meio de famílias plurais e redes de apoio. Segundo Mary, essas estruturas reuniam pais, mães, filhos, avós, tios e sobrinhos, sem que necessariamente fossem reconhecidas pela Igreja Católica. Eram relações estáveis, concubinatos e amasiamentos associados à sobrevivência das camadas mais pobres.

A historiadora reconhece a ocorrência de violência e estupros durante a colonização, mas rejeita a ideia de que esse seja o único elemento explicativo. Para ela, agricultores, trabalhadores da lavoura, pessoas envolvidas em pequenos ofícios, alforriados e escravizados também participaram de relações familiares que produziram diferentes grupos mestiços, posteriormente reunidos na categoria de pardos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Mary Del Priore afirma que documentos permitem acompanhar a mobilidade social de pardos, curibocas e caboclos por instituições como o Exército e a Igreja e, a partir do século XIX, também pelo jornalismo, pelo direito e pela medicina. Ela relaciona esse processo às mudanças nas nomenclaturas e ao branqueamento gradual de parte da população.

Em 1872, segundo a historiadora, o Brasil já era majoritariamente pardo. Entre 1870 a 1920, o país recebeu 3 milhões de estrangeiros, não apenas europeus, e a população parda continuou a se misturar com imigrantes de diferentes origens.

Mestiçagem e racismo

A pesquisadora também contesta a interpretação de que valorizar a mestiçagem significaria encobrir o racismo estrutural. Ela afirma que o livro aborda ainda a mistura entre indígenas da Amazônia e africanos de diferentes nações, além de processos que chama de cabloquização e mameluquização. Nesse entendimento, as famílias foram espaços de circulação de corpos e culturas, perceptível na língua, na culinária, nas formas de vestir, dançar e rezar.

A discussão ocorre em meio a uma reação polarizada. Mary Del Priore diz que o silenciamento prejudica quem busca compreender a própria genealogia e afirma que a documentação histórica deve prevalecer sobre explicações reduzidas a posições ideológicas. “A mestiçagem é uma evidência, não é uma suposição”, declarou.

Ela também diferencia o branqueamento documentado desde o final do século XVI das teorias eugenistas do fim do século XIX e início do século XX. Na avaliação da historiadora, a mestiçagem não elimina a existência do racismo, que considera uma questão transhistórica. O livro, segundo ela, procura ampliar a memória sobre a formação da população brasileira sem negar as desigualdades raciais.

Ao comentar o ambiente acadêmico, Mary Del Priore afirmou que pesquisadores encontraram dificuldades para tratar de um tema que considera espinhoso. Para a historiadora, os departamentos de História não devem restringir a pesquisa a uma única interpretação do país. “Não podemos mais continuar calados”, disse.

Texto produzido pela Redação Vozes da Cena com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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