Leny Eversong alcançou palcos de Las Vegas, Paris e Nova York, apareceu ao lado de Elvis Presley na televisão americana e realizou mais de 700 apresentações no exterior. Ainda assim, sua trajetória foi marcada pelo tratamento depreciativo dado ao seu corpo, pela cobrança em torno de uma suposta brasilidade e pelo apagamento de sua importância na música brasileira.
Nascida em Santos como Hilda Campos Soares da Silva, ela começou a cantar em inglês sem falar o idioma. Aos 12 anos, já se apresentava na Rádio Clube de Santos e era chamada de Princesinha do Fox. O nome artístico Leny Eversong foi criado por um radialista e remetia à ideia de canção eterna.
A vida pessoal foi atravessada por perdas e dificuldades. Hilda perdeu a mãe aos 13 anos e o pai dois anos depois. Casou-se poucos dias após a morte dele, teve um filho e deixou o casamento ao descobrir que o marido mantinha outra família. Depois do nascimento de Álvaro, em 1941, um desequilíbrio hormonal provocou rápido ganho de peso. A imprensa, que antes a apresentava como uma das mulheres mais bonitas de Santos, passou a explorar sua aparência em imagens cômicas.
A virada profissional
Leny trabalhou no rádio, no cinema, no teatro e na televisão. Passou pelo Rio de Janeiro, cantou na Rádio Tupi, apresentou-se no Cassino da Urca e no Copacabana Palace, gravou a partir de 1942 e atuou como crooner de orquestras e radioatriz. Aprendia canções em inglês pela audição e reproduzia as letras foneticamente.
Aos 35 anos, ainda não havia alcançado independência financeira. A mudança ocorreu em 1955, quando participou da inauguração da Rádio Mundial, no Rio de Janeiro. A apresentação de Canta Brasil ampliou sua projeção e fez com que se tornasse uma das artistas mais bem pagas do rádio brasileiro.
Em 1956, Leny chegou aos Estados Unidos. A carreira americana durou pouco mais de três anos, mas a levou a Las Vegas, Los Angeles e Nova York. Também gravou discos, trabalhou com músicos ligados a grandes nomes da música americana e foi apresentada como a brasileira que havia conquistado os Estados Unidos depois de Carmen Miranda.
A pesquisa reunida por Rodrigo Faour no livro A incrível história de Leny Eversong ou A cantora que o Brasil esqueceu registra que ela chegou a pesar 124 quilos e era frequentemente reduzida, no Brasil, à imagem de uma mulher gorda que cantava. Em 1956, uma reportagem chegou a colocá-la sobre uma balança para noticiar uma proposta de trabalho nos Estados Unidos.
O encontro com Elvis Presley
Em janeiro de 1957, Leny participou do The Ed Sullivan Show no mesmo episódio da terceira e última aparição de Elvis Presley no programa. As apresentações foram intercaladas, e fotografias registraram os dois ao lado de Ed Sullivan nos bastidores. Leny cantou El Cumbanchero, continuou circulando pelos Estados Unidos e pela Europa e, em 1958, apresentou-se no Olympia, em Paris.
A projeção internacional também produziu um dilema de identidade. No exterior, por cantar em inglês, ela às vezes era anunciada como americana. No Brasil, era questionada por não cantar de maneira considerada suficientemente brasileira. Seus empresários estrangeiros resistiam à inclusão de canções nacionais nos discos, enquanto a cantora insistia em gravar compositores brasileiros.
Faour identifica a gordofobia e o nacionalismo como fatores para compreender por que o êxito de Leny não se consolidou no cânone da música brasileira. Na década de 1960, ela passou por uma cirurgia plástica e perdeu dezenas de quilos. Segundo a pesquisa, o empresário teria pedido que recuperasse peso para que o público a reconhecesse. A imprensa também transformou o emagrecimento em piada.
Declínio e dificuldades financeiras
Durante os anos 1960, Leny continuou trabalhando no Brasil, participou de festivais, atuou em diferentes áreas e gravou um especial para a CBS americana em 1968. Também dividiu um show com Cauby Peixoto no Rio, posteriormente registrado em disco. Nesse período, a Bossa Nova, a MPB e o rock modificaram o mercado e projetaram outras formas de cantar e de representar a música brasileira.
Em 1973, durante uma temporada em Buenos Aires, Leny soube que o marido, Francisco Luís Campos Soares da Silva, havia desaparecido. Ele teria saído de casa em 4 de agosto daquele ano com destino ao Guarujá, mas nunca chegou. O caso não foi esclarecido. Hipóteses posteriores mencionaram a repressão da ditadura e outras possibilidades levantadas por pessoas próximas, sem comprovação definitiva.
O desaparecimento afetou diretamente a situação financeira da cantora. Parte do dinheiro acumulado durante quase duas décadas de sucesso estava ligada ao patrimônio do marido. Sem uma declaração formal de morte, Leny teve dificuldades para acessar os recursos. Para Ângela Maria, que conviveu com ela em palcos e programas de televisão, aquele episódio marcou uma mudança profunda. “Ela fez questão de desaparecer do mapa. Ninguém sabia onde ela vivia”, contou Ângela a Rodrigo Faour, em 2000.
Em 1983, um ano antes de morrer, Leny participou do programa Onde Anda Você, do SBT. Vivia de favor na casa de uma amiga, tinha diabetes e enfrentava dificuldades financeiras. De acordo com o programa recuperado na pesquisa sobre sua trajetória, havia vendido bens e discos de ouro para comprar comida.
Leny morreu em 29 de abril de 1984, aos 63 anos. Três anos depois, o marido foi oficialmente declarado morto, permitindo a liberação dos recursos bloqueados. A trajetória da cantora foi recuperada por Rodrigo Faour, que reuniu discos, fotografias, recortes e documentos ao longo de décadas. A pesquisa deu origem a uma dissertação de mestrado e, em 2023, ao livro biográfico publicado pelas Edições Sesc.


