Carla Cruz e Juscelino Filho, autores de Renato Russo — Todas as Canções, escolheram durante uma live as letras do compositor que consideram menos bem-sucedidas. A conversa ocorreu no canal Pitadas do Sal, após o apresentador pedir que os convidados deixassem a posição de fãs e assumissem uma perspectiva crítica. Os dois são ligados ao canal Musicália.
Carla mencionou “Um Dia Perfeito”, mas fez uma ressalva sobre a escolha. Para ela, a canção cumpre sua função dentro do álbum, tem uma construção simples e incorpora um elemento ligado às crianças que considera importante. A avaliação negativa, portanto, não seria uma reprovação total, mas uma comparação com outras faixas, vistas por ela como mais elaboradas.
Juscelino apontou “Química” e reconheceu que a indicação pode provocar reação entre os legionários. Ao justificar a escolha, comparou a faixa com outras músicas do álbum Dois, especialmente “Índios”, “Andrea Doria” e “Fábrica”. Também mencionou uma antiga resistência a “Plantas Embaixo do Aquário” e afirmou que “Química” chegou a ocupar, em sua avaliação pessoal, o lugar responsável por tirar o disco do primeiro posto.
Uma canção inacabada
O exemplo tratado como mais documentado foi “Apóstolo São João”, gravada pelo projeto Urbana Legion. Juscelino relatou que o manuscrito consultado pela dupla registrava a necessidade de trabalhar novamente na composição. A conclusão apresentada foi que a música não seria necessariamente ruim, mas teria permanecido incompleta e com espaços excessivos.
Carla distinguiu a rejeição pessoal de uma condenação artística. Ela disse que a canção não a alcança e que parece representar um recorte muito específico, sem afirmar que deixe de funcionar. A autora também observou que não encontrou manifestações posteriores de Renato Russo sobre a faixa.
A dupla ainda discutiu como a consagração do nome do músico pode influenciar a escuta. Para Juscelino, essa reverência “contamina o olhar, a interpretação”. Ao final, ele sustentou que a força de Renato Russo como letrista não está na ausência absoluta de erros, mas na capacidade de acertar repetidamente ao longo da carreira.


